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0 (novo) trabalho infantil
Com o qual todos somos coniventes

Foi a escola que fez com que o futuro das crianças fosse, para elas todas, mais justo. E foi porque a obrigatoriedade da escola retirou as crianças do trabalho e as devolveu ao seu direito de serem crianças, do qual não se afasta o direito a aprenderem, que todos aceitámos que o trabalho infantil é um atentado ao seu desenvolvimento e passámos a reprimir e a castigar quem com ele pretendia afastar crianças do seu direito à infância.

Deixámos - há muito, felizmente - a perspectiva das crianças como "fontes de rendimento" para a economia familiar. Mas temos, agora, uma ideia muito "financeira" de criança, que leva a que os pais criem a expectativa que, mal os filhos terminem a sua formação, têm não só de ser autónomos como se "exige" uma retribuição generosa e se espera uma progressão rápida e robusta de carreira, independentemente das qualidades que tenham como pessoas e das suas competências mais diversas, com o pressuposto de que mais dinheiro é mais felicidade.

Ora, a escola parece privilegiar a normalização das crianças, os seus sonhos e aquilo que podiam ser os seus projectos de estudo enquanto não acarinha (tanto como devia) as suas singularidades. Como se neste "noves fora nada" Escola e pais agissem como se fosse pouco relevante que os tempos das aulas se expandam para cima dos recreios, engolindo-lhes tempo de convívio, de correria, de algazarra e de brincar. Ou como se não interessasse que os ateliers de tempos livres se tenham transformado em locais onde elas realizam os "trabalhos de casa" (numa mesma perspectiva mecânica, como se ninguém se incomodasse pelo facto deles serem mais escola fora da escola). E como se fosse insignificante que os centros de explicações proliferem, com intensidade (como se o facto de a escola não as ensinar a aprender nem as ensinar a estudar exigisse que as crianças tivessem mais escola a propósito da escola). E que - a pretexto duma actividade desportiva, da formação musical ou de actividades lúdicas - houvesse muitas mais a terem outras escolas a concorrerem, em grau de exigência e em ânsia de protagonismo, com a própria escola.

Porque a escola é demasiado séria e demasiado preciosa, as crianças foram protegidas do trabalho infantil, em nome da salvaguarda do seu desenvolvimento saudável, com o auxílio da própria escola. Mas, entretanto, pelas consequências da forma como ela tem sido interpretada, a escola tem vindo a comprometer a infância. E tem transformado, através de actividades escolares levadas ao exagero, o direito à infância num novo tipo de trabalho infantil.

Começa, pois, a ser urgente que se acerte onde termina a escola, como direito inalienável das crianças a aprenderem, sem que comprometam o seu direito a serem crianças, e onde começa a escola, como novo trabalho infantil. Deverão as crianças trabalhar mais do que cinco horas diárias, em função do seu desenvolvimento, sem que deixem de ter duas horas de tempo livre, todos os dias? Será razoável que haja crianças que comecem a trabalhar às 8 e terminem de trabalhar às 20h, todos os dias? Será sensato que, em nome de um futuro melhor, não ponderemos as consequências que este novo trabalho infantil traz a tantas crianças que, do mesmo modo que muitas outras viram comprometido o seu futuro pelo trabalho que lhes roubou a infância, estarão, em nome do futuro, a fazer com que a escola possa comprometer o seu? Serão crianças mais informadas à custa do tempo que tiramos à infância - e sem espaço para "a escola da vida", e para o brincarem, e para (pelo menos) terem direito aos aspectos felizes que os seus pais reconhecem nas suas próprias infâncias, sem que os procurem replicar nas dos seus filhos - as crianças que elas merecem ser? Por via duma ideia de escola que não distingue os limites do direito a aprender dos limites do dever de as proteger do trabalho infantil, será mais trabalho e menos infância melhor futuro? E não se passa tudo isto num mundo que considera o trabalho infantil um atentado ao desenvolvimento das crianças e reprime e castiga quem com ele pretendia afastar as crianças do seu direito à infância? Afinal, o que é que é legítimo desejar? É simples: menos escola, melhor escola e mais infância.

 

artigo partilhado com o Observador

 

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