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A escola acaba no primeiro dia?
Não é fácil conciliar a vida profissional, a vida pessoal e a vida familiar

Foi promulgado um diploma que permite aos pais que trabalham na função pública, já a partir do próximo mês de Setembro, faltar ao trabalho, até três horas, para acompanharem os filhos, menores de 12 anos, no primeiro dia de aulas. "Desde que não se verifique prejuízo grave para o normal funcionamento do serviço" a que pertencem.

É bom que haja preocupação e empenho pela forma como se criam condições para que os pais não deixem de ir à escola! E, é claro, o primeiro dia de aulas é um momento tão valioso (e constroem-se aí memórias tão preciosas) que - sim! - é muito importante que os pais possam contribuir para que ele se transforme num dia mais importante, ainda. Sempre!

Só não se entende que se tome uma medida como esta com uma certa aragem de demagogia. Não, o mais importante não será discutirmos se deviam ser ou duas ou três horas. Mas, antes, ao considerar-se esta medida - apresentada como "emblemática" do compromisso que se pretende que as entidades patronais tenham para com a vida familiar das pessoas que trabalham para si - não se entende , por isso mesmo, que ela não seja extensiva ao sector privado. Depois, será importante que se pergunte se o "prejuízo grave para o normal funcionamento do serviço", por mais que surja como uma salvaguarda de sensatez, não irá, em muitas circunstâncias, ser evocado de forma pouco razoável, como se o compromisso com a educação dum filho fosse secundário ao trabalho que um funcionário público desenvolva nessas três horas. A seguir, pergunta-se qual o motivo pelo qual esta medida se "esgota" aos 12 anos dos nossos filhos. E, finalmente, se não seria precioso que, à esquerda e à direita, se assumisse que é indispensável que os pais tenham duas horas, por exemplo, de dois em dois meses. Para se deslocarem à escola dos seus filhos, para que, assim, tenham uma relação de continuidade com os professores que os mantenha informados, participativos e, activamente, comprometidos com o que lá se passa. Porque o atendimento dos pais é, na maior parte das vezes, "entre as 10,20 e as 11,10" (por exemplo) de um dia da semana. E, não sendo possível que ele decorra em horário pós-laboral para os pais, porque as escolas não reúnem recursos para pagar essas horas doutra forma aos professores, se chega a um estado de coisas em que a escola responsabiliza os pais pela sua ausência nos horários de atendimento, como se fosse fácil e não tivesse consequências para eles ausentarem-se, episodicamente, do trabalho para irem à escola dos seus filhos. Tenham empregos precários ou não.

Conciliar a vida profissional, a vida pessoal e a vida familiar é um objectivo precioso, sem dúvida. Chamar-lhe "três em linha" talvez não seja tão feliz assim. (Colocar três "peças", da mesma cor, em linha - na vertical, na horizontal, ou na diagonal - dá-lhes, no jogo, a mesma relevância. Já quando se trata de considerar vida pessoal, vida familiar e vida profissional o valor das "peças" é bem diferente). Mas, no que diz respeito à escola, resumir essa preocupação ao primeiro dia de aulas é estranho. Afinal, por mais que seja importante que os pais se considerem informados e as crianças se sintam acolhidas nesse momento, a escola é uma preocupação que não acaba no primeiro dia.

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