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Amar é fazer da vida férias grandes
Quando se descobre que se fica cansado de tanto descanso

Eu acho que que as férias grandes são a reserva natural da infância e da adolescência! Porque, ao menos, nas férias grandes - por mais que os pais os tentem cativar com livros de fichas para que eles não se “esqueçam” daquilo que aprenderam ou comprem alguns manuais do novo ano lectivo, para que se vão preparando para aquilo que irão aprender - os nossos filhos têm direito a ser crianças e a ser adolescentes. O tempo que quiserem! E têm direito a brincar sem verem, a toda a hora, o tempo a esgueirar-se e a fugir-lhes. Têm direito a descobrir que as coisas novas se sucedem, sobretudo, quando não fazemos nada para que elas aconteçam. Têm direito a gostar imenso do cheiro dos livros novos por mais que os deixem a “descansar”, sem sequer os folhearem. Têm direito ao tempo livre que lhes faltou durante o ano todo, até aí. E têm direito a imaginar e a engonhar. E a engendrar aquilo que não lembra a ninguém. A não ser aos nossos filhos quando se dedicam, de alma e coração, ao compromisso com as férias grandes a que só as pessoas trabalhadoras têm direito.

Desculpem (!), mas quando muitos pais acham que as férias de Verão dos filhos são grandes e exageradas talvez tenham a sua pontinha de inveja em relação à sensação gostosa de uma pessoa saborear o tempo a passar, como se todos os dias fossem fim de semana. Até ao dia em que, quase de surpresa, se descobre que se fica cansado de tanto descanso. E despontam as saudades da escola e dos amigos.

Os nossos filhos precisam de muitas férias porque trabalham muito para lá de quem trabalha demais. Porque têm horários impróprios para crianças que precisam de cuidar da sua infância antes, ainda, de cuidarem de todas coisas que lhes dão para aprender. Na verdade, as férias não servem para que eles carreguem “as baterias” com doses, generosas, de descanso. Porque, nas férias, quando eles brincam, puxam pela cabeça. E formulam problemas, colocam hipóteses, estruturam raciocínios e procuram soluções. Porque, sempre que brincam, se especializam na arte de apanhar “as coisas” no ar, que é um jeito quase mágico de fazerem de conta que vivem distraídos enquanto nada lhes escapa. Porque, sempre que brincam, a vida os atropela com perguntas, que se acotovelam umas às outras, como se eles pensassem mais fundo e de forma mais desconcertante (e mais luzente!) quando não fazem esforço quase nenhum para pensar. E porque brincar é o melhor de todos os trabalhos de casa, as férias grandes servem para que eles carreguem as baterias de vida. Da vida que lhes falta quando andam numa correria os dias todos. E para que peguem nas coisas que tinham aprendido “à pressão”, e que estavam entarameladas umas nas outras, e as estendam ao sol. E as adubem; de genica! E as deixem medrar. Quanto mais eles chegam à escola atulhados de experiências novas mais a escola é uma escola. Porque só quem os sabe escutar os ensina a aprender.

É por isso que eu gosto que os nossos filhos tenham, nas férias grandes, muito tempo para não terem nada para fazer. E que sejam quase briosos, até, quando fazem uma espécie de greve de zelo aos trabalhos de casa que algumas escolas lhes dão para fazer. Ou que se esqueçam deles até à noite da véspera do regresso às aulas. Como se nada pudesse amachucar o gosto, inebriante e quase sublime, de não pensarem senão naquilo que é urgente ao seu crescimento.

Sem férias grandes as crianças murcham. E o seu olhar matreiro mirra, aos bocadinhos. Por isso, sempre que os pais respeitam a escola - e acarinham o descobrir, o perguntar, o experimentar ou o aprender - os nossos filhos deviam ter, do primeiro ao último minuto do último dia, direito às férias grandes! Sem as quais o ano perde todo o seu encanto. Porque é com elas - quando são cheias, e são intactas e são intensas - que o conhecimento se descobre e a vida se inventa, do princípio. Mais outra vez.
Como só eles sabem (mas não devia ser assim!), amar é, afinal, fazer da vida toda férias grandes. Muitas vezes!

 

Artigo publicado originalmente em 

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