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Amar a Escola
Podem as crianças amar a escola se ela, de forma clara, não faz com que se sintam amadas?

As crianças são - todas elas! - muito inteligentes! Todas são imensamente atentas, curiosas e intuitivas. Todas interpretam antes de ler e formulam problemas (e resolvem-nos) muito antes de saberem contar. Todas fantasiam, simbolizam e representam. E todas as crianças são expressivas. Com o corpo. Da forma como olham e como gesticulam. Com o modo como falam. Ou do jeito como vão do traço ao desenho e dos sentimentos à sua representação. E, claro, todas elas pensam. Se todas as crianças são tão competentes quando chegam à escola, o que é que se passa para que umas pareçam tornar-se mais inteligentes que outras e para que, sendo todas elas tão aptas para conhecer e para discorrer, umas pareçam tornar-se boas alunas e outras acumulem insucessos escolares? Por outras palavras: o problema da escola são as crianças ou o problema das crianças é a escola?

Evidentemente que não é razoável que se exclua a diversidade individual com que se chega à escola. Até porque o jardim-de-infância começa por acentuá-la ao discriminá-las, quando não devia (um vez que nem todas o podem frequentar). E até porque muitos jardins-de-infância são, tragicamente, pré-escola, quando não o deviam ser. Seja como for, por mais que as suas competências sofram vários constrangimentos antes delas lá entrarem, o problema das crianças é a escola. Ela encarrega-se de ignorar grande parte das competências de que elas dispõem. E, quando assim é, "estraga-as". Não são as crianças que chegam cedo demais à escola. É a escola que parece chegar, invariavelmente, atrasada às crianças. Não são as crianças que estão distraídas e desconcentradas na escola. É a escola que acumula “défices de atenção” sobre “défices de atenção” acerca das crianças. Não são as crianças que não querem aprender. É a escola que não as conhece e que, por isso, não as sabe ensinar.

1. A escola desconhece as crianças. Continua a relacionar-se com elas como se, para si própria, elas fossem “páginas em branco”, como há 100 anos se supunha. E, como se as crianças, hoje, fossem como dantes: sossegadas e caladas, o que só é possível quando elas têm infâncias intimidantes e infelizes.

2. A escola não lhes dá tempo para serem crianças. Imagina que o crescimento é, hoje, mais acelerado do que, de facto, ele é. Aliás, quanto mais complexos são os desafios e os conhecimentos que têm ao seu dispor, mais as crianças precisam de tempo para que, de experimentação em experimentação, aquilo que se sabe se ligue com aquilo que se aprende e se transforme em sabedoria: sintética, simples, e útil.

3. A escola não lhes dá oportunidades para perguntar e para indagar. Ou seja, silencia os movimentos de síntese que as crianças fazem e o modo como, com eles, elas ligam e religam conhecimentos, os colocam em perspectiva e percebem como “funcionam”. Não permitir que a pergunta seja privilegiada em relação à resposta é comprometer o pensar em favor do repetir.

4. A escola castiga as crianças quando erram. De certo modo, ao contrário do que devia ser. Porque só as crianças que arriscam o erro (e se aventuram para além daquilo que conhecem) o compreendem (e aprendem com ele). E, só assim, o resolvem “para sempre”.

5. A escola não lhes permite falar tanto quanto deviam. Para aprenderem a formular problemas de forma clara (para si e para os outros, ao mesmo tempo). E para ganharem voz. Sem a qual não se fazem ouvir nem, sequer, aprendem a escutar.

6. A escola reprime a “cabeça no ar” e censura a imaginação. E esquece que todas as crianças saudáveis fantasiam, confabulam e recriam. E que é essa liberdade que lhes traz contraditório àquilo que conhecem e lhes permite ver mais longe, gerar conhecimento, recriá-lo e transformar.

7. A escola desqualifica a cooperação e acarinha a competição. E não incentiva, tanto como devia, a capacidade de pensar em conjunto, de congeminar e de “cocabichar” com os outros e, só assim, de empreender.

8. A escola não ensina a estudar. Não ensina a duvidar. Nem ensina a experimentar. Educa para que se repita e incentiva quem reproduz. E, sempre que o faz, transforma pessoas singulares em “produtos normalizados” e estudantes que pensam em alunos amedrontados.

9. A escola não ensina o que há de útil naquilo que se aprende. Onde se vê isso, para que serve, a quem se liga e como se utiliza. E, sempre que não o faz, leva a que muitos conhecimentos - que são preciosos e indispensáveis - se tornem enfadonhos e “supérfluos”. Quando eles deviam ser “pontes”, “gruas” ou, de certa forma, “asas”.

10. A escola exige mais às crianças do que aquilo que lhes dá. Espera ser, quase sempre, melhor que os professores que tem à sua disposição. E, ainda, que os alunos sejam melhores que a escola e que professores, independentemente daquilo que lhes dá.

11. E pelo seu lado, os pais dão mais importância às classificações dos seus filhos, do que aos conhecimentos que eles manuseiam, à sabedoria que eles os articulam e à autonomia com que os procuram e os utilizam. E, como se isso já não limitasse as suas competências e as estragasse - em muitos, muitos momentos - os pais respeitam os professores tão pouco como os professores não respeitam os pais. E, quando é assim, para que serve a escola?

12. Finalmente, a escola tira, vezes de mais, o entusiasmo, o divertimento e o prazer, quando se trata de aprender. E isso transforma as aulas num exercício penoso e sofrido onde aprender e brincar não se confundem nem se misturam. E onde as notas - muito mais do que aquilo que se sabe - estão sempre à frente daquilo que se aprende.

Pode, diante de tudo isto, o “regresso às aulas” representar um “regresso à escola", no sentido sensato que todos desejamos que ela tenha? Aquilo que se espera que a escola seja é, tragicamente, muito pouco daquilo no que ela se tornou. Mas, sendo assim, pode a escola transformar-se, ignorando a forma como “funcionam” as crianças a quem ela se dedica? Podem as crianças amar a escola se ela, de forma clara, não faz com que se sintam amadas?

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