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As crianças ganham em voltar às creches?
a vida em estado de sítio: 24

Ganhariam. Se, com isso, voltem a ter as oportunidades de estimulação que as creches lhes podem dar. E se se voltassem a socializar com os seus pares. A brincar. A jogar. A falar. E a lutar por um espaço. E a terem outras figuras de referência que lhes alarguem os horizontes das pessoas da família. E se, com isso, saírem do espaço acolhedor mas, todavia, um bocadinho "sufocante" em que se estão a transformar as suas casas.

As creches têm, por outro lado, pessoas com formação, cuidados dedicados, normas de segurança, espaço, recursos pedagógicos, etc. E têm todos os cuidados de higiene e segurança que um espaço como este requer. E os pais têm, por parte das creches, o descanso de poderem deixar os seus filhos à guarda de pessoas a quem os confiam sem reservas, podendo ter a autonomia, a vida própria e os compromissos laborais sem todos os constrangimentos que se têm sempre que se tem um filho à guarda enquanto se trabalha.

A questão que se pode colocar a todos estes ganhos prende-se com a forma como (e com que custos) se pode criar um "cordão sanitário" entre as crianças até aos 3 anos. Quando convivem. Ou quando brincam. Como se pode evitar que se toquem? Que lambuzem brinquedos antes de os trocarem? Ou que não usem o chão e as mãos para explorar o mundo, para o conhecerem e para o "saborearem"?

É claro que os pais têm compromissos profissionais e preocupações laborais que tendem a ficar "asfixiantes". E, por isso mesmo, as creches trazem-lhes uma clareira de "oxigénio". Mas não pode uma creche transformar-se num risco acrescido para as crianças que estão à sua guarda? E como pode uma educadora, por exemplo - por mais que esteja de luvas e de máscara - vincar um distanciamento em relação aos "seus meninos" quando a sua relação, de todos os dias, se pauta, exatamente, pelo contrário? Como se pode ser asséptica, cumprir um certo "isolamento", e ser calorosa e carinhosa e dar colo, ao mesmo tempo?

A ideia de um regresso das crianças às creches passará por se reconhecer que elas não poderão estar mais um ano fechadas em casa? Ou pela perspectiva da criação de uma imunidade de grupo, começando pelas crianças pequeninas, que correrão, a priori, menos riscos com a exposição ao coronavírus (por mais que sejam, potencialmente, um veículo transmissor)? Passará, também, pela necessidade de esbater os custos (muito grandes) de manter os pais destas crianças em casa, por mais tempo, enquanto as creches estão fechadas? Tudo isto será verdade. Seja como for, se, num plano meramente operacional, fará sentido que as crianças regressem às creches, eu entendo a "tentação" dos pais quando, podendo as crianças continuar em casa, hesitam em deixá-las voltar. E entendo, mais, que entre aquilo que as crianças perdem ao voltarem à creche e aquilo que poderiam perder ao serem expostas à infecção por coronavírus, os pais, escolham protegê-las de ser infectadas, "guardando-as" em casa. (Desculpem-me a parcialidade!) Pessoalmente, é assim que irei fazer.

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