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As férias dos pais ainda estão por chegar
É verdade que as aulas já acabaram, mas...

Pronto: podemos respirar fundo que já terminaram as festas de final do ano e as reuniões de pais. E, chegados a Julho, é mesmo a altura em que as férias dos nossos filhos nos marcam as agendas. Entram em jogo os avós e os campos de férias. E nós entramos num reboliço de preocupações para ocuparmos as crianças sem as mandarmos à escola. É verdade que as aulas já acabaram. E que não temos de nos preocupar com revisões de matérias, trabalhos de casa, mochilas e correrias de fim de dia. Mas, como os pais não têm direito a férias, pontes ou feriados - e como faltam dois meses (só dois!) para o regresso às aulas - esta é a altura em que hesitamos se os nossos filhos vão continuar na mesma turma. Eu, por mim, mudava sempre as crianças de turma!

Em primeiro lugar, porque quanto mais os pais se implicam nas turmas em que os seus filhos ficarão a frequentar, menos as escolas capricham naquelas "coincidências" estranhas de agruparem, de forma muito pouco aleatória, as crianças pelas turmas. Os apelidos mais sonantes na turma A. E os "alunos com dificuldades" todos juntinhos numa turma ou noutra.

Em segundo lugar, porque não entendo quem determinou que as crianças saudáveis começam, hoje, num grupo, e assim continuarão pelos anos adiante, até ao 9º ano. Há, em cada turma, uma espécie de distribuição de papéis em que um é, oficialmente, o "espevitado"; o outro, o "tímido"; um outro, o "inteligente"; e mais o "malandro"; o "refilão"; o "rezingão"; etc. etc. Na verdade, quando um professor e as crianças reconhecem e assumem os seus papéis, tudo corre como se a "característica teatral" de um grupo nunca se alterasse. As primeiras perguntas fazem-se sempre aos mesmos. E, depois de gastas todas as hipóteses, os raciocínios finais ficam para os mais "espertos". Ora, porque é que, ao chegarmos aqui, não dividimos uma turma em quatro? Porque é que não "baralhamos" as crianças e as voltamos a agrupar, de forma a que elas tenham de reaprender a descobrir os seus lugares dentro de um grupo e a desvincular-se dos papéis a que estavam "coladas", reinventando-se e crescendo com isso?

Em terceiro lugar, sempre que as turmas se dividem, acaba-se com os "meninos queridos" de um professor. Que, oficialmente, não existem; mas que não é verdade. Seja pela "química" que se cria entre um professor e um aluno. Ou pelos juízos enviesados que um professor possa ter feito em relação às dificuldades de uma dada criança. Ou pelo modo como a forma de um se explicar não encontra acolhimento no jeito do outro o acolher. Ou pelo modo como a relação dos pais e do professor já terá tido melhores dias. Seja como for, os "vícios de forma", ao existirem, com uma mudança ficam mais sossegados.

Em quarto lugar, é verdade que, quando um professor acompanha o percurso de um aluno isso, por vezes, pode ser bom. Mas, sejamos verdadeiros, essa não é a regra; mas a excepção. A regra ganha se, todos os anos, uma criança tiver de se "adaptar" à forma de pensar o português, a matemática ou a história de um professor. Porque são sempre formas diferentes de pensar. E, muitas vezes, modos quase contraditórios de compreender as matérias, os conceitos e os raciocínios. E isso é bom. Faz com que um aluno fique mais versátil. E, quando acha que é "bom" numa matéria, faz com que perceba que a tem de reaprender quase de novo. Enquanto que, quem acha que “não presta” em relação a um determinado campo de conhecimentos, tenha novas oportunidades de descobrir que pode fazer as "pazes" com aquilo que mais lhe foi provocando dissabores.

E, finalmente, porque quando se dividem os alunos em quatro e se baralham os grupos algumas crianças "cheias de si" têm novas oportunidades para aprenderem a ser humildes. E outras que vivam encolhidas encontram formas de "pôr o nariz de fora" e passarem a existir. Para além, é claro, de se corrigirem muitos grupinhos que se vão constituindo em cada turma. E se porem no lugar algumas relações "doentias" em que uma criança mais persuasiva manda noutra, mais insegura, que, por mais que seja mais bullying do que parece, é alimentado, de forma interminável, por muitas escolas (e muitos pais).

Por isso mesmo, antes de ir de férias, puxe pelo seu direito à indignação e, se a escola acha que nas turmas não se mexe, comparticipe na escolha da turma do seu filho. Eu sei que, se o fizer, irá ficar com a sensação de que está a atrasar as suas férias. Mas, acredite, pode ganhar um grande descanso pelo ano fora.

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