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Boas notas? Não, obrigado!
O crescimento dos filhos requer escolhas e convicções e nunca se faz à margem das dúvidas

1. Convencionou-se assumir que o mundo que valoriza o dinheiro ou está mais perto do céu ou contamina as pessoas com a vertigem de que tudo se compra. Ora, se foi o dinheiro que criou condições para que a escola – ao abrir-se, obrigatoriamente, para todas as crianças – corrigisse as desigualdades com que “o berço” as poderia, desde o princípio, ter enviesado, foram as escolhas (mais que o dinheiro) que outros, antes, fizeram, que criaram as condições para que a política e a economia, em sintonia, fizessem com que a escolaridade obrigatória se tivesse transformado na grande revolução da Humanidade. Porque tornou a escola mais plural e mais singular. E só isso permitiu que as pessoas passassem a ser menos desconfiadas entre si e tivessem mais e melhores oportunidades para conhecer e para pensar.

É claro que do mesmo modo que os pais – ao mesmo tempo que poupam sofrimentos aos seus filhos – não podem refugiar-se em slogans como: “Ele não luta por nada” (como se filhos comodistas em excesso não fossem consequência dos pais que tentam substituir-se à sua autonomia, vezes demais), também acerca da educação se tem de perceber que não basta o mesmo “tem tudo e não luta por nada”. Como entre os pais e os filhos, é essencial que se saiba o que se quer: da escola e daquilo que se deve exigir dela, em função dos recursos que lhe são dados. Queremos melhores notas, melhores alunos ou melhores pessoas?
O desafio do futuro será, portanto, fazer com que – ao contrário daquilo que se passa com muitos meninos em todo o mundo, que precisam de muita escola, cada vez mais escola – melhor escola seja, entre nós, sinónimo de menos tempos lectivos, de mais literacia, de melhor educação e de mais humanidade. O que, muito mais do que seria desejável, não acontece.

Mais escola não é, por inerência, melhor educação e pessoas melhores, como todos sabemos. Melhor educação não significa, esclareça-se, crianças mais sossegadas, mais silenciosas, mais falsas ou mais obedientes. Não! Representa crianças vivas e serenas; crianças autênticas e espontâneas; crianças que escutam e que perguntam; crianças curiosas e criativas; crianças singulares e solidárias; crianças que brincam e que estudam; crianças ruidosas e atentas; crianças que respeitam e interpelam; e crianças que aprendem e que pensam. Crianças mais educadas são, em resumo, crianças que falam do que sentem sem que confundam crueldade (que são verdades sem afeto) com verdade (que são verdades com bondade). Melhor educação significa, portanto, crianças sensatas e proativas. E crianças que não privilegiam o controle (do que sentem) ao pensamento (com que ligam).

2. Imaginando um ranking de crianças bem educadas (e, portanto, de pessoas melhores), vivemos, ainda, num país tolhido por necessidades educativas especiais. E num país em que o ênfase colocado na formação científica (e na matemática, em particular) vai continuando a presumir, precipitadamente, que um mundo novo se alicerça mais nas ciências e menos nas humanidades, mais na estatística e menos na palavra, mais nos desempenhos e menos no carácter, mais na técnica e menos na filosofia, na história e na política. Como se ou se fosse branco ou se fosse preto; mas nunca colorido. Ora, um país onde o “ou” prevalece sobre o “e”, como todos já percebemos, corre o risco de ser mais amigo da estupidez que da educação! E, insistindo em ser assim, jamais será cúmplice com o futuro. Porque um melhor futuro para os alunos não reside no modo como uma formação em medicina ou em gestão os torne mais ricos, mais depressa.

O futuro exigirá – sempre! – para além daquilo que estudem, que eles saibam fazer conviver um corpo, um pensamento, uma família, um conjunto de amigos, uma vida pessoal, uma vida amorosa, uma vida profissional, e pontos de vista, sonhos e projetos com que ligam, entre si, todas estas vidas; com paixão e com convicções. Não indo por aí, o melhor que se consegue é transformar crianças interessadas em alunos desinteressantes.

Mas, também em função dessa mesma aspiração de construirmos pessoas mais educadas e melhores, os pais não podem ficar à espera que a escola ou o Estado definam, implementem e resolvam aquilo que eles, antes de mais ninguém, devem fazer em função da boa educação. O crescimento dos filhos requer escolhas e convicções. Exige tempo, trabalho e determinação. Recomenda prudência e paixão. E não se faz à margem das hesitações, das dúvidas e dos erros dos pais. Porque o bom nunca é fácil. Nem se faz sem algum sofrimento. Mas com trabalho, com escolhas, com tempo e com determinação. Sem tudo isso, a ideia dum crescimento fácil para as crianças é, sobretudo, um sinal de preguiça dos pais.

3. Como podem, então, os pais, contornar as omissões dum país que, desde há muito, parece ter trocado uma política de educação por medidas soltas, muitas delas erráticas? Como podem ter a liberdade de desobedecer a este impasse de: ou termos política sem educação ou educação sem política? Como podem fazer com que uma criança seja, ao mesmo tempo, mimada e combativa? E fazer com seja boa pessoa e boa aluna? Como podem os pais ser a autoridade reguladora de que a escola precisa, tornando-a melhor?

a) Percebendo que a escola, sendo indispensável e preciosa, não é tão importante como parece.
b) Acarinhando a função da família como a escola das escolas.
c) Nunca perdendo de vista que as crianças primeiro são singulares e só depois serão protagonistas. Nunca ao contrário.
d) Compreendendo que alunos submissos e crianças educadas não são a mesma coisa.
e) Reconhecendo que quanto mais os pais são amigos da escola mais as crianças se tornam amantes do conhecimento.
f) Assumindo que todos os trabalhos de casa que sejam repetição em lugar de ser de recreação e de recriação são próprios de escolas com défices de atenção.
g) Atentando que por trás duma criança com insucesso escolar pode estar, também, um professor em dificuldades.
h) Não fazendo pelas crianças aquilo que devem ser elas a fazer por si.
i) Não perdendo de vista que repetir não é aprender. E que conhecer implica confrontar, duvidar, perguntar e reconhecer.
j) Aceitando que não há crianças difíceis sem educadores assustados.
k) Não deixando de considerar que as explicações terão de ser a excepção e, jamais, a regra. E que, mesmo quando elas existam, excepcionalmente, que não representem alguém que estuda com as crianças, que estuda para as crianças ou que lhes poupa dúvidas, dilemas e perguntas.
l) Ousando insurgir-se contra todos os ateliês de tempos livres que sejam uma solução de comodismo – escolarizada, regra geral – de se ter menos família, ou uma forma batoteira de fazer, longe dos pais, os trabalhos de casa.
m) Reclamando que um recreio não é uma pausa, mas uma oportunidade de convivência sem a qual não se cresce.
n) Acarinhando a ideia de que, mais importante que as boas notas são os bons alunos. Daqueles que erram e que aprendem. E mais importante, ainda, que os bons alunos são aqueles que, tendo “várias vidas”, são bons alunos, bem educados e boas pessoas.

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