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Comunicado sobre o direito (das crianças) à greve, em Agosto
Pré-aviso de greve aos trabalhos de casa.
1. A greve decorre durante o mês de Agosto. Mas não será, todavia, por tempo indeterminado. Abrange todas as actividades escolares e extra-curriculares, e estende-se às "horas extraordinárias". Nomeadamente, àquelas que decorrem entre o fim da praia e o jantar.

2. A greve não comporta serviços mínimos. Como, por exemplo, fazer uma conta, ler duas páginas de um livro ou realizar um ditado, de meia dúzia de linhas, com a ajuda dos pais.
3. A greve tem em vista a luta por melhores condições de trabalho. Aliás, as crianças não entendem porque é que se um adulto que passa a vida a trabalhar e que não tem nem fins de semana nem férias é um workaholik, e isso é uma doença, uma criança que trabalhe das 8h às 20h, que faça revisões e tenha explicações ao fim de semana, ainda tenha de ter trabalhos de casa entre o banho e o jantar e trabalhos de casa nas férias, isso seja só empenhamento, e seja uma virtude.
4. Apesar da sua duração, a greve não prevê qualquer requisição civil. Talvez porque os trabalhos de casa durante as férias não tragam transtornos de monta. Em primeiro lugar, porque com trabalhos de casa num registo "mecânico" não se compreende, não se "puxa pela cabeça" e não se aprende! Depois, porque se os trabalhos de casa não servem para que aquilo que se aprendeu não se "varra"da cabeça. Porque quem sabe não esquece. E porque, quando se aprende, tudo funciona como andar de bicicleta: "fica lá". E, finalmente, se a ideia dos trabalhos de casa nas férias é estarem mais preparadas para o regresso das aulas, também não. Porque, a seu tempo - talvez com outro professor - terão oportunidade de voltar a pensar naquilo que já sabem, agora de outra forma. Logo, aquela ideia que leva a que as crianças tenham de trabalhar "de castigo", durante as férias, só para que passem, aos primeiros "100 metros" de um novo ano lectivo na cabeça da corrida, não nos satisfaz.
5. As crianças reconhecem que haverá sempre outras crianças que, de certo modo, serão um bocadinho "fura-greves". Mas, considerando o volume de adesão à greve aos trabalhos de casa em Agosto, entendem que não se justificam nem piquetes de greve nem entrevistas no Jornal das 8, denunciando a falta de solidariedade que esta nobre causa possa merecer. Aliás, a maior parte das crianças só volta a lembrar-se dos trabalhos de casa que trouxe para as férias na véspera do regresso às aulas. O que, ou é mais um exemplo do perigo dos défices de atenção ou um efeito do sol. Ou, então, dessa terna dialéctica que se estabelece entre a bondade de um professor, quando sugere trabalhos de casa para as férias, e o esquecimento de um criança, quando se dá conta da sua distracção, que faz da escola um exercício de cidadania único e insubstituível.
6. Seja como for, perguntam as crianças, não serão "trabalhos de casa" as cantigas, as histórias, as lengalengas e os jogos que os pais inventam no longo caminho de casa até às férias? E não é aprender quando se anda pela praia e se apanham conchas e se fala sobre elas? E não é aprender usar, primeiro, os baldes para os encher com areia e aprender o volume para que, depois, se faça com eles um castelo, percebendo porque é que ele não cai? E não é aprender quando se olha para o horizonte e se pergunta onde é o que o mar acaba? E não é aprender querer saber porque se mexem as ondas ? E, quando passa um avião, querer saber como é que ele não cai?
7. É por isso que essa ideia que faz com que se suponha que tudo aquilo que se aprende nasce na escola não é verdade. A escola põe legendas no mundo, põe problemas, ajuda a compreendê-los e, só por isso, a resolvê-los. Mas imaginar que são os trabalhos de casa, nas férias, quem torna as crianças mais expeditas, mais perguntadoras, mais inteligentes e mais sábias, não é verdade. Por muito que custe a alguns interessados, o melhor dos trabalhos de casa, nas férias, chegam pela mão dos pais ou dos avós. Como fazer poços na areia, ir ao futebol, mergulhar e fazer de tubarão. E é só porque trocam trabalhos de casa, nas férias, por trabalhos de férias, em casa ou na praia, que as crianças acreditam que esta greve possa merecer um apoio maciço de toda a população. Nomeadamente, dos representantes dos pais. E dos professores.

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