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E se o seu filho reprovou?
Como é o dia a seguir à reprovação

Todos os pais saudáveis são um bocadinho vaidosos. E é normal que sejam assim. Como é bom, aliás, que - da mesma forma como acham os filhos lindos, expeditos e inteligentes - esperem que todos os outros (e a escola, em particular) não só partilhem essa opinião como, inclusive, a ampliem muitas vezes. Os pais saudáveis são aquelas pessoas que, por mais que digam (e repitam) que um filho não tem que ser “o melhor”, nunca acabam essa frase; como quem dá a entender: “Agora, se tu quiseres muito ser o melhor, a mãe e o pai não te ralham...”. Os pais saudáveis guardam, também, a folha das notas na carteira para que, sempre que estão com um amigo, e como quem é apanhado pela surpresa dum papelinho perdido, a abram, quase com requinte, para terminarem, como quem se desculpa pelas boas notas dum filho, sempre com uma mesma advertência: “Mas nós não exigimos nada disto!”. Os pais saudáveis vão do orgulho à vaidade num instantinho. E mal seria que não fosse assim.

Mas as notas dos filhos não são sempre uma boa surpresa que lhes enche o coração. Por mais que não me canse de recordar que as crianças inteligentes não tiram sempre boas notas e que precisam de errar para aprender, a verdade é que, às vezes, as notas dos nossos filhos se “constipam” demais. Regra geral, e quando isso acontece, num primeiro impulso, todos nós nos zangamos (muito!) com eles. Ou porque andaram a “passear os livros”. Ou porque são uns “cabeças no ar”. Às vezes, vamos pelos diagnósticos dentro. Isso acontece quando imaginam os nossos filhos com “dificuldades de concentração” ou com “défices de atenção”. Pronto: não são eles; é “um defeito de fabrico”. Às vezes, limitamo-nos a desabafar com alguma fúria: os nosso filhos têm é esperteza para o que não devem. Ou são, sem margem para dúvidas, “preguiçosos”. E tudo fica por aí.

No entanto, sempre que uma criança tem uma negativa esse resultado é responsabilidade sua, claro, mas, também, responsabilidade do professor, da escola e dos pais. Sem fazer disso um drama nem pretender que se coloque sobre cada negativa um manto de “pó de arroz” que desculpe e branqueie o papel dos nossos filhos nas suas notas. Mas começa a ser urgente que sejamos todos mais honestos com as notas. Não podemos, sempre que um aluno tem bons resultados, utilizá-las para que, de ranking em ranking, essas notas serem mérito da escola, a ponto de se transformarem num instrumento de marketing. Para que, quando um aluno tem maus resultados a responsabilidade ser, unicamente, sua.

Os resultados finais traduzem um ano de trabalho duma equipa (aluno, pais, professores e escola) que não só não funciona tanto em parceria como devia, como, vezes demais, não funciona; simplesmente. Isto é: quando um aluno tem maus resultados e reprova a responsabilidade é de todos! Sempre. E era bom que, logo que se discuta uma reprovação ou uma amostra nacional com maus resultados a uma dada disciplina, que ninguém se pusesse de fora.

Porque é que um aluno reprova? Porque o convidam a ser “marrão” quando ele é, sobretudo, inteligente. Porque ele chega à escola com tantos “vícios de forma” no seu comportamento que cada aula é um “castigo”. Porque tem a cabeça “atropelada” por tantos problemas tão graves que “não tem cabeça” para as matérias escolares. Porque a forma como o programa lhe é proposto não tem nem muito sentido nem muita utilidade. Porque, por vezes, também há maus professores. Porque há pais que lhes infernizam a paciência com a escola que lhes roubam qualquer paixão que pudessem ter por ela e a transformam num “castigo”. Etc. etc etc.

Por tudo isto, se o seu filho reprovou, tem todo o direito do mundo de ficar triste, desalentado e, até, um bocadinho envergonhado. Tem todo o direito a repreendê-lo e a imaginar-se a castigá-lo. Mas não o faça num impulso. E, muito menos, sem se colocar “na equação”. E tem, sobretudo, a responsabilidade de imaginar “o dia seguinte” em relação a esta reprovação. Com duas certezas: ninguém reprova sozinho; e não há crianças “burras”. Há, isso sim, crianças que aguardam por quem acredite nelas, as conheça melhor e as ajude a aprender.

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