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Ele distrai-se com uma mosca!
Há alturas em que nada tem o encanto de uma mosca

Gosto das crianças que se distraem com as moscas! Porque só as pessoas tremendamente atentas e sensíveis são capazes de reparar, de ser curiosas e de se interessar por 5 a 8 milímetros de vida, a esvoaçar ao largo do seu raio de visão. É por isso que não compreendo o lado ora reprovador ora lamuriento com que, quer as escolas como as mães, desabafam: "Ele distrai-se com uma mosca!". Como se as crianças que se interessam pelo voo das moscas fossem incorrigivelmente desatentas. Como se não dessem importância aquilo que é importante! Quando elas, ao contrário do que parece, têm a imensa capacidade de se "perderem" com os detalhes mínimos com que a sua incorrigível curiosidade as surpreende. E isso não é distracção: é atenção aos pormenores com que a vida compõe a paixão de conhecer.

Por outro lado, nenhuma criança capaz de ser tão atenta como as crianças amigas das moscas são capazes de ser, trocaria um assunto apaixonante por uma mosca! Isto é, se há crianças que se tornam preocupantes porque se distraem com uma mosca a pergunta mais preciosa que se deve colocar deve ser: “Porque é que a história, a matemática, aos trabalhos de casa ou ao português lhes falta o charme que 5 a 8 milímetros de vida, a esvoaçar, conseguem ter?…”

Por isso, se me permitem, não castiguem as crianças que se encantam com as moscas! Nem as repreendam, sequer. Elas não se distraem com moscas! Interessam-se e são atentas a tudo aquilo que, aos olhos das pessoas crescidas, não consegue chegar ao encanto que, nalguns momentos, só uma mosca consegue te! E se, porventura, a matemática ou o português se melindrarem por lhes faltar o charme do voo de uma mosca, façam como ela: insinuem-se. Exibam-se. Dêem-se a conhecer. Desafiem a compreender. E verão que as crianças que são capazes de se distrair com uma mosca passarão a distrair-se com tudo o mais que, para além delas, sempre que se esvoaça, as desafiam a conhecer.

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