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Escola aos 5 ou aos 7?
As chamadas crianças condicionais

Escola aos 5 aos 7? Aos 6. Mas com prudência. Embora haja duas “tendências”, neste momento, a ganhar muita força entre os pais: aquela que faz com que eles queiram, ansiosamente, que as crianças entrem aos 5 na escola, “para ganharem um ano”; e a que acha que só devem entrar aos 7, “para terem mais um ano para serem crianças”. Por mais que não se questione a bondade dos pais, sempre que optam por querer que os seus filhos entrem na escola aos 5 aos 7, talvez seja importante que tentemos perceber as razões destas duas formas de ver o início da escolaridade obrigatória.

A escola aos 5 não é, obrigatoriamente, uma teimosia dos pais. Pode ser um acto de bom senso. Imaginando que um criança faça 6 anos em Setembro, Outubro ou Novembro do ano em que entra na escola e supondo que terá frequentado um jardim de infância integrada num grupo de meninos que mereceu a atenção duma educadora de infância, que permitiu que se avaliasse, duma forma empírica, as suas competências de forma positiva.

Por outro lado, uma criança reúne as competências indispensáveis para “saltar” do jardim de infância para o ensino básico não ganha se entrar na escola aos 7. Nem mesmo que, com isso, os pais, na ânsia de a protegerem das “agruras” da escola, a deixem “a brincar” mais um ano. Até porque, sejamos razoáveis, quando os pais imaginam a escola como uma porta que se fecha para a infância aquilo que mais deverá ser motivo de alarme não será tanto a escola: na exorbitância de tempos, de exigências e de trabalho que lhes exige; ou na insensatez com que reparte as actividades em sala de aula com o recreio; ou no modo com que a reprodução e a repetição de conhecimentos se desencontram da criatividade; ou desequilibra conhecimentos e expressões. O motivo maior da preocupação com a entrada na escola aos 7 poderão ser os próprios pais. Pela forma como (com bondade, todavia) reagem a uma deriva que leva a que muitas escolas se transformem numa “linha de montagem” de jovens tecnocratas de sucesso à qual eles se opõem com uma ideia mais “ecológica” e mais “romântica” de infância que, no fim de contas, talvez não proteja tanto assim os seus filhos.

Deve ser o critério etário a determinar a entrada duma criança no ensino básico? Talvez não. Uma criança deve “saltar” para o 1º ano de escolaridade quando:

  • - tem uma relação com o corpo harmoniosa, articulada - na forma como o move com tonicidade, equilíbrio e movimento  que se traduz em em expressividade - e o liga com a forma como rivaliza, “guerreia”, olha e cria;
  • - a forma como escuta e está atenta não oferecem nem dúvidas nem reservas;
  • - a maneira como imagina e como constrói e recria histórias tem destreza, densidade, flexibilidade e movimento;
  • - o jeito como vai da riqueza simbólica ao raciocínio abstracto se assemelha a uma “auto-estrada” de duplo sentido;
  • - a forma como se expressa pelo corpo, pela palavra e pelos gestos expressivos com que desenha se articulam uns nos outros;
  • - a motricidade se casa com a autonomia de forma plástica e com versatilidade;
  • - observa, perspectiva e desenha de maneira articulada;
  • - sente a música, se a receia ou se expressa, pelo corpo, através dela;
  • - o modo como se insere em grupos diferentes com segurança é apaladada com a capacidade para reagir a um conflito, tolerar uma frustração ou conviver com um insucesso e reagir a ele;
  • - a forma como acede à palavra já não comporta, no essencial, fragilidades em relação a sons tais como o “r” ou o “s”, e lhe permite articular frases e expressar-se com “princípio, meio e fim”;
  • - brinca, dramatiza e joga de forma interligada;
  • - é curiosa, “perguntadora”, exploradora e proactiva.

Se, em termos globais, a avaliação de uma educadora se compatibiliza com a sensibilidade dos pais, então não faz sentido que uma criança, por critérios de idade ou porque os pais entendem que “é cedo”, que a entrada na escola não se dê. Não tanto porque o grupo de que fará parte se quebre e ela seja afastada dele, mas porque se torna difícil para uma criança, quando se compara de forma espontânea com os amigos do mesmo grupo de jardim de infância, compreender os motivos pelos quais não os acompanhou numa mudança para o 1º ano de escolaridade.

Porque, no final, o que se espera é que as crianças sejam capazes de manter “intactas” as qualidades que as levaram a entrar na escola e não as estraguem. Como acontece muitas vezes! Daí que deseje que todas as escolas, independentemente do nível de ensino que as crianças frequentem, “sejam” jardins de infância. Não é, pois, a maturidade das crianças que me preocupa. Em caso de dúvidas, a “maturidade” das crianças despista-se, avalia-se e educa-se. A “maturidade” dos pais desafia-se, interpela-se e vira-se do acesso. Mesmo quando, num primeiro momento, entendem o crescimento dos filhos como uma forma de ganhar anos à vida ou quando, com sensatez, entendem que a escola não pode acabar com a infância. Já a “maturidade” das escolas é mais preocupante. Porque, mesmo quando aceita que as crianças entrem aos 6 - por aquilo que lhes exige, pela forma como as ensina, pelo modo como define objetivos curriculares (por vezes) muito pouco razoáveis, e pela maneira como gere os espaços, os tempos e as relações (com os pais, com o ar livre, com os valores da humanidade e com as grandes questões sociais e com o futuro) - parece ver as crianças sempre mais “infantis” e sempre “muito mais velhas” do que aquilo que são.

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