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Esperança por uma escola melhor
É verdade que se dependesse dos professores, todas as escolas seriam amigas das crianças

É verdade que se dependesse só dos professores, todas as escolas seriam amigas das crianças. Mas há todo um "sistema" que cria à volta das competências escolares uma engrenagem tão sufocante que a escola não tem sido tão amiga para os professores e para as crianças como devia. 

A escola que todos ajudámos a criar nem sempre tem as competências, as necessidades, as expectativas, a sabedoria e as prioridades das crianças em consideração. E, na maior parte das vezes, não acarinha a paixão dos professores pelo ensino, não valoriza as suas características pessoais (transformando-as em recursos pedagógicos), não providencia a sua formação, nem entende nem multiplica as suas competências de "influenciadores", com as quais eles mudam a vida das crianças. A escola que todos ajudámos a construir criou um “sistema” que "robotizou" os professores, "robotiza" as crianças e tem sido, contra tudo o que sonhámos para ela, um "paraíso fiscal" para a inteligência artificial, muito mais do que uma "reserva natural" de tudo aquilo a que, no seu conjunto, entendemos - orgulhosamente - como humanidade.

A forma como a escola se tecnocratizou e burocratizou tem roubado muitos dos argumentos que fizeram dela o instrumento que transformou a Humanidade e lhe deu um rosto humano. Foi a escola que nos devolveu às grandes causas sociais. Foi a escola que nos levou a compatibilizar educação e justiça. Foi a escola que derrubou divisões sociais e extractos sócio-económicos. Foi a escola que democratizou o mundo. Foi a escola que nos abriu à diversidade e à diferença. E foi a escola que, ao construir-se numa reciprocidade onde todos aprendem com todos, assumiu o crescimento com uma urgência inclusiva! Compatibilizando singularidade, autonomia, cooperação, solidariedade, compromisso e liberdade. E, em todos esses passos, foram os professores quem mais trouxe mundo ao mundo.

Ao contrário, uma escola mais burocrática e mais tecnocrática uniformizou critérios e definiu metas curriculares - e isso, quase sempre, é bom - mas estandardizou uma ideia de desenvolvimento que está longe de corresponder à "impressão digital" de cada criança. Passou a querer certificar quantitativamente a aprendizagem dum modo que nem sempre fez com que aquilo que se aprende combatesse a iliteracia, dando utilidade a tudo o que se aprende. E enviesou e encolheu muitos dos atributos humanos que trouxeram à escola a alma, a paixão e a irreverência que fizeram dela o rosto da revolução tranquila com que o mundo foi mudando de dentro para fora da escola. Uma escola mais burocrática e mais tecnocrática empurrou-se a si própria para uma certa prisão populista em relação aos dados estatísticos sobre a educação (que, em muitos momentos, são traições à verdade). E considera, demagogicamente, como aprendizagens os resultados escolares, não os integrando numa rede de recursos onde também caibam a competência para pensar, a ousadia de perguntar, a capacidade de discernir dúvidas, a tenacidade de "escarafunchar", o pedir a palavra, a perseverança de procurar, a edificação da autonomia e o prazer de estudar sem os quais a escola não é uma escola. Se a escola se distrair de si mesma como fonte de inspiração com que liga a criação de bons alunos à construção de boas pessoas contenta-se com as pessoas que a frequentam mas não ousa frequentá-las; para sempre.

Uma escola que (se) pensa será, por compromisso, uma escola amiga da criança. Mas uma escola ancorada na ilusão de que se cresce, hoje, mais depressa, e se aprende da mesma forma, à mesma velocidade e do "zero", em que os professores sejam mais importantes que os manuais, não será amiga das crianças. E não sendo amiga da criança nunca será, seguramente, amiga dos professores.

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