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Estojo de primeiros socorros para sobreviver aos exames
(só para pais)

Ninguém está, realmente, preparado para os exames. Não é só porque o ano vai longo e o cansaço manda mais um bocadinho. Não é só porque, à medida que um exame chega mais perto, a sensação de que seriam precisos mais dois ou três dias para se estudar "como deve ser" cresce, todos os dias, mais um bocadinho. Não é só porque é difícil manter, ao longo de uma "época de exames", o moral sempre "em cima" e a motivação próxima do máximo. E não é só porque o céu azul, o calor e cheiro a maresia convidem a cabeça a desencontrar-se do seu foco e a perder-se por outras paragens. É, sobretudo, por causa dos "nervos" que os exames trazem consigo. Que fazem com que a vida de uma família fique numa autêntica "maré viva". Que quase desperta o apetite de ir de férias nestas alturas e deixar o "mau génio" de um filho, quando fica assustado, entregue à gestão (prestimosa) do próprio.

Por isso mesmo, os pais, nestas alturas, deviam equipar-se de um pequeno "estojo de primeiros socorros" para sobreviverem aos exames dos filhos. Para que não lhes fique a sensação de que, façam o que fizerem, ouvem "Eu é que sei!", "Não percebes nada" e outros "mimos" desse género mais vezes do que mereciam. Por isso mesmo:

Os pais deviam considerar-se proibidos, nestas alturas de exames, de dizer "Não estejas nervoso!". Porque é saudável que se tenha medo e que, por causa dele, os dias antes de um exame variem entre estar-se confiante e "Pronto para tudo?", e ficar-se "atolado" em não sei quantos "Não sou capaz!", acompanhados de um humor de fugir.
◦ Os pais também não ganham em fazer coaching motivacional e acabar, criativamente, no já clássico "Vai correr tudo bem!". Porque se arriscam a ouvir um comboio de lamúrias e uma chuva de desabafos que, no final, termina sempre com mais uma porta a bater e um filho a dizer que vai desistir.
◦ Nestas alturas, os pais devem continuar a mandar um filho arrumar o quarto. A fim do caos que por lá se vive, por estes dias, deixar algum espaço para se arrumarem as ideias e se conseguir trabalhar. Por mais que os pais tremam de medo de o fazer! E mesmo que um filho diga que os pais implicam com ele, "por tudo e por nada" - "Parece que é de propósito…" - sobretudo, nestas alturas.
◦ Os pais não devem levar "à letra" todos os comentários que consideram a segunda fase dos exames sempre mais fácil. Nem devem trocar argumentos sobre isso. Porque tudo é um pretexto para que os nervos de todos fiquem "em franja"! Por mais que os próprios pais não deixem de se perguntar, falando com os seus botões, se as fases dos exames não são como as filas de trânsito, que nos levam todos a desconfiar que escolhemos sempre a mais enfadonha.
◦ Os pais não devem alarmar-se com o olhar escanzelado de um filho, nestas alturas. Sobretudo porque não podem esquecer que a cabeça dos filhos é um "simulador de voo". E não devem esquecer que - não que eles o façam por querer - há alturas em que a cabeça reage como se ele estivessem, "realmente", a meio de um exame, diante do problema de matemática mais complicado do mundo. A ponto de ficarem com náuseas, em pânico e com um olhar "gaseado".
◦ Os pais estão proibidos de perguntar: "Tu não devias estar a estudar?…" Primeiro, porque corre mal. Depois, porque os filhos têm uma leve ideia que estudar para um exame já entra no perímetro do "desporto de alta competição". E que, por isso, exige disciplina (claro), muito trabalho e método. Mas, também, estratégia, um ritmo sem nada de exageros, alguma descontracção e muito descanso. Por mais que, em relação a este último "departamento", jogar para distrair acabe sempre a dar algumas cenas feias que se dispensariam, com os pais e os filhos a conjugar, de forma diferente, o "verbo": "Estar com a cabeça no lugar…". 
◦ Os pais não estão autorizados a repetir um dos slogans mais queridos dos filhos, nestas alturas: "Eu estudo melhor sob pressão!". Na verdade, não só não o deviam repetir como, até, ganhavam se ficassem com "a pulga atrás do ouvido". Porque só quando se deixa tudo "para a última" é que slogans como esse entram em cena.
◦ Os pais estão, também, proibidíssimos de ficar orgulhosos com a última "directa" de um filho. E de ser "fofos e queridos". Ou de comentarem: "Não trabalhes demais…". Porque a tal "directa" é bem capaz de ter mais a ver com uma "saída de emergência" para alguma "preguicite aguda" - que, como um vírus, os assolou - do que com o método de eleição mais amigo do sucesso.
◦ Os pais estão, ainda, interditados de perguntar: "Estás preparado?…" Porque isso pode gerar a fúria a um trovão! Ou, no fim de um exame, de querer saber se ele "Correu bem?" Porque filho que é filho, por mais que nunca (!) seja supersticioso, tem sempre uma insistente desconfiançazinha que há perguntas que dão azar.
◦ Os pais estão autorizados a ficar em "modo de alarme" sempre que dão conta que um filho está numa calmaria das grandes. Porque isso pode não querer dizer que ele se sinta "a dominar a cena". Mas só que ele ainda está para perceber aquilo que (ainda) não sabe. E aí, sim, as coisas podem ficar "feias"...
◦ Os pais devem recordar que, no idioma de um filho, "correu bem" (com reticências) quer dizer que as coisas não estão famosas. "Correu assim-assim" que se vai precisar muito que um santo padroeiro "benza" o exame para que não venha lá uma notícia das más. E que "correu fixe" já dá o direito de dar as boas-vindas ao Verão que está a chegar.

E, finalmente,
◦ os pais não devem ir, a correr, buscar água com açúcar, sempre que, depois de um filho se confrontar com a correcção de um exame, ele acabar a repetir dez vezes que vai chumbar. Porque os exames são mesmo assim: puxam um filho de tal forma para o sentimento que até a memória se ressente. E tudo aquilo que parecia certo e correcto é atropelado por um ciclone de dúvidas que faz com que todos fiquem de nervos num fanico. Ou até, mesmo, de rastos.

 

Artigo publicado originalmente em 

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