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Grande inimigo do jardim-de-infância
É... a pré-escola!

I

1. O grande inimigo do jardim-de-infância é a pré-escola. Aquela tendência que, devagarinho, se vai implantando no sentido de se atribuírem ao jardim-de-infância objectivos e metas “curriculares”, conteúdos claramente escolares, “trabalhos de casa” (como já vai acontecendo) e, até, ameaças de “reprovação”. E, todavia, continuo sem perceber por que motivo se separa o jardim-de-infância, funcionando como tem funcionado, do ensino obrigatório. Sem jardim-de-infância “não há” ensino obrigatório.

2. O jardim-de-infância corre o risco de ser, muitíssimo mais do que os exames, o grande factor de discriminação social na relação das crianças com a escola. Crianças com mais e melhor jardim-de-infância têm mais e melhor relação com a escola. Logo, não podemos continuar a adiar o jardim-de-infância, tendencialmente gratuito e para todos, porque com isso corremos o risco de discriminar as crianças no seu acesso à educação muito antes, ainda, delas entrarem na escola. Por outras palavras, enquanto Portugal não se tornar um país amigo do jardim-de-infância jamais se tornará amigo da escola e amigo da criança. Por maioria de razão - como não me canso de alertar, há muitos anos - quando há jardins-de-infância mais caros que muitas universidades privadas.

3. O jardim-de-infância, como o nome o indica, é um local onde se leva a infância de casa até ao jardim. Não é, de todo, uma escola; por mais que lá se aprenda. E não é bem um jardim; por mais que lá se brinque. O jardim-de-infância é uma espécie de praça de pessoas ruidosas onde se aprende a brincar.

4. Bem vistas as coisas, todas as escolas deviam ligar brincar e aprender. Na verdade, todas as escolas ganhariam se, cada uma a seu modo, fosse um jardim-de-infância. Aliás, todos os jardins-de-infância que aceitem ser “escolinhas” não são amigos das crianças!

5. O jardim-de-infância serve para apurar o talento das crianças para aquilo que elas têm de melhor: serem crianças. Serve para as “viciar” pelo gosto da infância. Serve para que elas se descubram umas às outras. Serve para que vençam o medo com a curiosidade. Serve para que vão do egocentrismo, próprio das pessoas amadas, até ao conviver e à cooperação, só ao acesso das pessoas educadas.

6. O jardim-de-infância torna o conhecimento e o crescimento parceiros inseparáveis. E torna-os amáveis.

7. O jardim-de-infância educa para o amor pelo conhecimento. Porque faz com que do conhecimento que se destapa se vá ao conhecimento que nos descobre. Todas as escolas que des-encantam, des-encorajam e des-contentam não são jardins-de-infância!

8. O jardim-de-infância dá rostos ao mundo. Porque o “costura” entre quem o traz e o oferece - o educador de infância - e aqueles com quem ele se descobre e com quem se vai do desconhecido ao familiar: os amigos. Aqueles com quem se con-vive e sem os quais nada se com-pensa.

9. Devia ser proibido ensinar a ler e a escrever no jardim-de-infância! Porque mimetizar aprendizagens sem compreender a lógica onde elas assentam e as relações que elas permitem é transformar crianças atentas, inteligentes e criativas em “macacos de imitação”. E não é quem mais repete que pensa melhor.

10. Não são as crianças que melhor repetem conhecimentos, aos 4 e aos 5 anos, que melhor os utilizam, melhor os pensam e melhor os recriam aos 8 e aos 10!


II

11. O jardim-de-infância é o local onde as crianças descobrem os instrumentos com que se conhece o mundo, - o corpo, o olhar, o sentir, o tocar, a melodia, a palavra e o traço - muito antes de o conhecerem com método e como criador de conhecimento(s).

12. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo do corpo. E permite que se vá do olhar até ao gesto. E que se ponha o corpo a falar com as palavras. E se fale com olhos e com as mãos. E se jogue à bulha e se agrida com maneiras. E que se dê a mão. E se brinque e se jogue. E se compita. Crianças educadas contra o corpo não sentem, não pensam nem descobrem.

13. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo da música. Porque a música é a Torre de Babel: a “mãe de todas as línguas” antes, ainda, de se falar, com todas as letras, a língua materna. Porque a música “educa o ouvido”. Porque ela educa para o caminho que vai do som à palavra. Porque ela permite que se abstraia e se ligue o que se sente com aquilo que se pensa. Porque ela permite que se pense e se discorra ainda antes de fazer contas e de ligar as palavras. Quem não é amigo da música nunca se encontra com as operações matemáticas e com a palavra.

14. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo da educação visual. E só isso educa olhar. E permite que se “desmonte” o olhar para que, de seguida, ele se reconstrua traço a traço. E ajuda a dar cor aquilo que se vê para que, então, se possa colorir aquilo que se sente. Só quem transforma o olhar em traços faz com que aprenda as sínteses com que o mundo, por mais complexo que pareça, se torna simples.

15. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo das histórias. Porque elas ligam afectos e palavras. Ligam enredos e acção. Dão rostos e formas aquilo que se sente, muito antes de se falar, de modo explicado, pela palavra. Aliás, quem acumula livros e não se perde nas histórias nunca as leu. Por mais que as corra, umas atrás das outras, até ao fim.

16. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo do brincar. Porque brincar permite dizer eu e nós. Porque brincar permite ligar corpo e alma e pensamento. Porque brincar permite pôr problemas e resolvê-los, ao mesmo tempo. Porque brincar traz com o medo o engenho incansável de o ultrapassar. Por outras palavras, quem não brinca não pensa.

17. Um jardim-de-infância para ser jardim-de-infância é amigo do tempo. Porque educa a degustar. Porque permite que as dúvidas se acarinhem. E que, de tanto serem testadas, só assim elas se vençam. Porque permite que as perguntas ganhem, para sempre, às respostas. Vendo bem, quem não é amigo do tempo nunca vive.

III

18. O jardim-de-infância faz de cada educador de infância um misto de pais e de professores. Alguém que não é professor nem é mãe. Mas um bocadinhos das duas “coisas”. Ao mesmo tempo.

19. Só quem é escutador, e quem é brincador, e quem é perguntador consegue ser educador de infância.

20. Se o mundo fosse atento e protector, todos os professores seriam educadores de infância!

 

 

*Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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