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Não. As crianças não se cansam. Só se distraem...
Por medidas mais sensatas!

Tenho sido contactado por alguns pais de crianças do Instituto Espanhol de Lisboa em relação aquilo que está a acontecer nesta escola relativamente a um novo horário, que terá sido anunciado a 48 horas úteis do primeiro dia de aulas, que determinou uma jornada contínua de aulas para as crianças a partir dos 11 anos. Estes alunos terão sete aulas seguidas, com dois intervalos de 15 minutos cada, culminando com um almoço apenas às 15:15h, usufruindo de 25 minutos para ele.

Considero que as escolas têm absoluta legitimidade para definir os tempos lectivos como muito bem entenderam, ancoradas em fundamentos que se presume serem sensatos e equilibrados. Seja como for, perante todas estas solicitações devo assumir o seguinte:

Tenho chamado, inúmeras vezes, a atenção para a correlação que, se foi desenhando com o tempo, entre o modo como se foram banalizando os blocos de aulas expositivas de 90 minutos, entrecortados por recreios de 5 ou de 10 minutos, com a “epidemia atípica” de défices de atenção que, alegadamente, atingirá muitas crianças portuguesas.
Tenho, igualmente, alertado para a forma como não se compreende que, em função de algumas dificuldades que muitas crianças evidenciam diante destes procedimentos escolares, essas dificuldades sejam sempre imputadas às crianças - como se fossem resultantes dum “defeito de fabrico” ou duma anomalia nervosa - e quase nunca ao modo como se organizam os tempos das aulas, a respectiva didáctica ou a outros factores como, por exemplo, o próprio professor.
Vou, também em muitos momentos, chamando a atenção para o absurdo em que a escola foi caindo: pressupondo que mais tempo na escola e mais tempo de aulas significam melhor escola (o que não é verdade!); pressupondo que todas as crianças aprendem da mesma forma e à mesma velocidade; e presumindo que a introdução das novas tecnologias no ensino coloca a escola up-to-date com as necessidades das crianças mesmo que continue a imaginá-las, hoje - na forma como pensam, como sentem e raciocinam - iguais às crianças a quem a escola se ia dedicando há mais de um século atrás.
E tenho, finalmente, argumentado que não é razoável que falemos, como nunca, da importância das crianças e, ao mesmo tempo, lhes acabemos a dar menos tempo para serem crianças, transformando a infância que não vivem num “banco de horas” de que jamais irão usufruir.
Para além, claro, de dizer que uma escola que não percebe a função do brincar para a aprendizagem peca por défices de atenção gravíssimos.

Julgava eu que seria impossível ir-se para além de tudo isto que, desde logo, já seriam medidas, muitas delas, pouco amigas da educação. Reconheço que uma jornada contínua de sete aulas com 2 intervalos de 15 minutos passam, no meu entendimento, todos os limites. Não se trata de desqualificar o Instituto Espanhol de Lisboa, como imaginam. Mas de não me furtar a dizer que uma medida como esta vai muito para além daquilo que seria razoável que uma escola colocasse ao dispor das crianças. Sobretudo se espera que elas aprendam.

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