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Não se escreve com a ponta dos dedos
Mas com o corpo. Todo!

O melhor do mundo é o futuro. Também na educação, claro. Por mais que nos preocupe a todos a forma como a escola utiliza quadros interactivos e datashows, por exemplo - e com eles está, portanto, no século XXI - sem que repare, muitas vezes, na sua forma de ver os estudantes (que está, mais do que devia, entre os séculos XIX e XX). Mas o mais assustador é, sem dúvida, a utilização generalizada dos tablets, com o argumento que se poupa no papel ou no peso das mochilas enquanto se ganha na versatilidade que eles trazem à aprendizagem. Um tablet é, verdadeiramente, um “três em um” (livro, lápis e caderno), mais interactivo e muito mais apelativo que os instrumentos clássicos com que sempre se aprendeu.
Se a utilização dos tablets no terceiro ciclo e no ensino secundário podem trazer ganhos muito grandes para a relação dos adolescentes com a escola, o seu uso exclusivo no primeiro ciclo já se torna preocupante. Sobretudo quando já podemos ver muitos destes alunos, que integraram planos experimentais do Ministério da Educação, terem grandes dificuldades com a caligrafia, com a fluência com que escrevem e com a ortografia.

A escrita permite que se vá do desenho e do som à sua representação abstracta numa letra. E requer que o corpo e a motricidade, num movimento harmonioso, representem - através dum desenho que não se repete - uma forma que, primeiro, tem uma sonoridade e, depois, uma musicalidade, sempre que ela se liga a outros sons. Na verdade, ganhamos se as crianças aprenderem a contar pelos dedos e se descobrirem a escrita desenhando letra a letra. Isto é, se, depois de a observarem, trouxerem uma realidade para dentro de si para que, então, vão do corpo à representação e da representação à semântica.

O que é que ganhamos se não formos da motricidade à caligrafia e da caligrafia à escrita? Nada. Até porque é o movimento harmonioso e padronizado da escrita que atribui uma imagem a uma letra, transformando-a num símbolo, partindo-se daí para a escrita. É a diversidade dos movimentos que liga imaginário e símbolos e cria a escrita. Podem pessoas que se desencontram da escrita reconhecer-se na palavra? Não. Podem pessoas que se defendem da escrita ir daquilo que pensam à clareza com que o comunicam? Não. Onde ficam o desenho e a música como pontes para a escrita? Perdem-se; tragicamente. Como se vai do corpo à palavra pela ponta dos dedos? Com todos os equívocos que uniformizar um movimento para todas as letras (que, contudo, têm formas, sons e significados distintos) só lhes pode trazer. Desenhar uma letra ensina-nos a lê-la. E leva-nos da forma ao som. As letras não se aprendem sem as desenharmos. E não se aprende a ligá-las e a articulá-las escrevendo com a ponta dos dedos.

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