Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
Não sei, não consigo, não sou capaz!
Quando as crianças se assustam com a escola

Reconheço que é mesmo verdade que gosto do "lado demagógico" das crianças. São hábeis na forma como argumentam. E quase imbatíveis no modo como se fazem de vítimas. Têm "lábia". "Falam ao coração". E, quando querem, são os "reis do patoá". Mas, seja como for, é também verdade que elas - entre as expectativas dos pais, os seus próprios anseios competitivos e as dificuldades que as atrapalham - sofrem muito com a escola. Contra a vontade de todos, é claro.

Em primeiro lugar, porque as crianças adoram ganhar e nem sempre a escola lhes "faz a vontade". Depois, porque as crianças ficam, por vezes, "encolhidas" com o medo de falharem e passam, por vezes, do entusiasmo à desistência, num instantinho. Começam cheias de garra e, quando olham "pelo canto do olho" para um colega mais despachado (ou quando um professor as adverte, enquanto varia nos decibéis, ou elas próprias se decepcionam diante dos planos que foram construindo e que, entretanto, se "constiparam") já retiraram. Há crianças que desistem muito depressa, como se qualquer decepção as levasse para muito perto do lamento que os pais preocupados vocalizam: "começa tudo e não acaba nada". Como se não bastasse, há crianças que - mesmo não recorrendo ao "sinal alaranjado" com que preparam toda a gente para uma má notícia (com o já clássico "correu mais ou menos"...) - e por mais que saiam dum teste a descansar o coração dos pais com um despachado "correu bem!", é natural que fiquem tão aflitas que (dependendo do dia, da matéria em avaliação, do professor e da primeira pergunta do teste) falhem nas questões quase elementares e acertem, por vezes, nas mais complexas. Há alturas dessas em que se dá um "apagão" (um "bloqueio", como dizem os pais) e as ideias se tornam "brancas" e o mundo parece ficar confuso e desfocado, até.

Todas as crianças têm um bocadinho de medo ao chegarem à hora de mostrar do que são capazes. E isso não é mau. Ao conseguirem desafiá-lo, dentro de si, vão ficando mais robustas diante daquilo que as assusta ou, mesmo, mais "geniquentas" quando afrontam as suas pequenas frustrações. Mas há crianças que, de medo em medo, ficam tão assustadiças que passam a ter medo... de ter medo. E aqui, sim, tudo se complica. Sobretudo porque os pais, na ânsia de as sossegarem, se enredam entre muitos "diz à mãe porque é que não és capaz..." e acrescentam outros tantos "tu consegues!" que não só não resolvem o medo como, aliás, o amplificam (acabando por ser quase tão eficazes como contar carneiros para adormecer...). Mas, como se não bastasse, a seguir, todos os momentos dedicados aos trabalhos de casa e a breves passagens por um livro ou outro são acompanhadas por reivindicações, mais ou menos desesperadas, de "não sei, não consigo e não sou capaz!" (que acabam no mais famoso de todos os adocicados desabafos maternos: "ele só trabalha se estiver ao pé de mim..."). E, à medida que estes arrepios se vão enovelando uns nos outros, estas crianças vão ficando um bocadinho "burras" diante duma matéria, ao mesmo tempo que acumulam desempenhos excelentes noutras, parecendo ter nascido competentes para certas áreas e quase completamente "engasgadas" naquelas onde parecem mais amigas dos falhanços. Pelo caminho, foram ficando os primeiros sinais de que alguma coisa teria de mudar: ou através da forma como, à medida que iam reclamando que tudo era difícil, as crianças foram fazendo escolhas de conveniência, sempre com o "mais fácil" à frente de tudo; ou da maneira como, sejam as perguntas de desenvolvimento ou as composições escritas, elas vão oscilando entre respostas que variam entre o "minimalista" e o telegráfico. 

Compreende-se que, chegados aqui, os pais estejam perdidos. Tão depressa reconhecem que os seus filhos são capazes como - por mais que se sucedam as ajudas familiares, as explicações e os gestos mais desesperados de inventar mais uma recompensa onde ela não devia existir - o alarme dos pais começa a complicar o medo,  chegando-se à "bola de neve" com que muitas crianças e muitas escolas entram em "alerta geral". No entretanto, já as crianças recorreram a todo o tipo de argumentos para fugirem aos livros: desde o "já estudei", de quem já só passeia os seus livros, ao "ele não abre um livro", com que muitos pais desesperam diante da greve de zelo dos seus filhos. Para não falar na forma como elas "esticam, esticam, esticam" os trabalhos de casa de modo a que nunca mais os acabem, terminando tudo numa "cena à italiana" onde os pais, em fanicos, se rendem e, entre ameaças, os terminam por elas (enquanto lhes acenam com represálias como... um colégio interno).

Chegados aqui, é altura de parar. Não é verdade que as crianças não gostem de tirar boas notas. Não é verdade que haja crianças preguiçosas (porque a preguiça é uma forma de se falar do seu lado inseguro e tristonho a conviver num qualquer desafio). Nem é verdade que haja crianças desmotivadas (como se isso fosse uma epidemia atípica). Todas as crianças saudáveis se motivam quando estão a ganhar! Mas, para isso, precisam de trabalhar "os tais 30 minutos", todos os dias, mesmo contra a sua vontade. Porque, sem darem por isso, apanham "pontas soltas" naquilo que leram. E, a seguir, aprendem "sem querer". E, depois de dois bons resultados, começam a acreditar que podem ganhar. Só a seguir chega a paixão de aprender (que, valha a verdade, se dá muito mal com o medo). Não sem que, antes, e após o primeiro bom resultado, elas recuem nos bons resultados com o receio de não voltarem a consegui-los. Tudo isto enquanto desafiam a paciência dos pais ao variarem, num só dia, entre as suas versões de "Rezingão, da Branca de Neve", com que saem de casa, e a de "Calimero", com que regressam.

subscreva