1.
Sou confrontado, muitas vezes, com pais que se lamentam porque o melhor amigo do seu filho "é muito mauzinho". Muito ávido duma relação exclusiva com ele. Com "muito mau feitio". E muito capaz de influenciar o grupo dos colegas para se não se aproximarem dele, para o excluírem das brincadeiras ou para o "riscarem" de uma ou de outra festas de aniversário.
Não querendo desqualificar a bondade e a condescendência dos pais, pergunto-me sempre se não estarão, perigosamente, distraídos em relação a uma "amizade" que não cumprirá, seguramente, os critérios de que todos consideramos indispensáveis para a assumirmos e alimentarmos enquanto tal. E, muito pior, se não estarão, na sua boa fé, a embrulhar numa atmosfera de amizade uma relação onde se alimenta o maltrato.
2.
Mas comecemos pelo princípio. Serei das últimas pessoas do mundo a alimentar um discurso demagógico sobre o bullying. Para mais, quando se confunde, vezes demais, agressividade e violência. Comecemos, então, pela agressividade. Continuo a achar que os só os bons irmãos andam à bulha. E que a agressividade, com lealdade e com maneiras (na família ou com os amigos) é um património da Humanidade e faz bem à saúde. Aliás, a prova de que a maioria das pessoas foi mal educada para a agressividade é o espetáculo indecoroso que inúmeros políticos, da esquerda à direita, nos dão (vezes demais) quando - em lugar de os termos a esgrimir argumentos esclarecidos, duros e claros - competem pela gritaria, achincalham e dão "palmadões" na mobília da "Casa da Democracia". Não deixo, mesmo, de me perguntar o que é que não faríamos aos nossos filhos se se especializassem nestas "diatribes democráticas", confundindo liberdade com requintada má educação. Mas, maus exemplos à parte, "a verdadeira agressividade" faz bem. É ela que nos permite ir da bulha à agressão para que, depois de lapidada, possamos ter arreganho e ser afoitos. Como é a agressividade que nos ajuda a "metabolizar" a dor, a ambicionar, a competir, a rivalizar e, até, a proteger. Como reparou, não separo a "boa" da "má" agressividade. Sobretudo se ela for só agressividade ("verdadeira" agressividade, portanto). A agressividade será sempre boa se vier "equipada" com culpabilidade e com trabalho de reparação. Isto é, "a medida" que introduz humanidade na agressividade é a dor que trazemos às pessoas que agredimos (num arrufo, num impulso ou numa ira que, grande parte das vezes, serve para limparmos "raivas de estimação" que acumulámos ao longo de um dia). Por outras palavras, na maioria das vezes, guardamos sempre o melhor do nosso "mau feitio" para as pessoas de quem gostamos mais. Unicamente, porque são tão seguras para nós que não se "partem" com a nossa agressividade. Como nos educam em relação a ela (sempre que nos repreendem, por exemplo). Como nos ajudam a compreender que a sua dor pelos nossos actos será a "entidade reguladora" que melhor os lapida. Já para não falar que sempre que elas ficam mais tristes nos amam menos e pior. O que, tudo junto, nos ajuda a perceber que a bondade não é só uma escolha; é, sobretudo, um acto de inteligência. Quando a agressividade não vem "equipada" com a culpabilidade de quem agride transforma-se em violência. A agressividade é um factor de crescimento; a violência é sempre um maltrato. A violência é, assim, a promoção repetida de sofrimento, sem culpabilidade nem reparação! Seja ela física ou psicológica, claro.
3.
Será a escola, desde sempre, um lugar onde se experimenta a agressividade e onde se chega, de experiência em experiência, à distinção entre agressividade e bullying? Sem dúvida. Não perdendo nunca de vista que bullying não é agressividade; é violência. Por mais que a escola pareça ser, vezes demais, quem pior distingue agressividade de violência. Aliás, quanto mais ela interdita a "ortopedia da agressividade" (no jogo, na actividade desportiva ou na relação casual), quanto mais desvaloriza a actividade física, quanto menos permeia a palavra, e quanto mais censura as parábolas através das quais o mal se transforma em bem), mais contribui para que tudo se confunda.
Por outro lado, não entendo a proliferação de aulas sobre bullying. Seminários sobre bullying. Observatórios sobre bullying. Acções de formação sobre bullying. E iniciativas de prevenção do bullying. Porque quanto mais a escola se burocratiza acerca do bullying menos atenta e menos escola ela se torna. Aliás, é até curioso observar como, com tantas e tão cerradas discussões em torno do bullying, a escola pareça ser, tantas vezes, tão demissionária a sinalizar as acções de bullying que ocorrem em contexto escolar. E, muitíssimo pior, é escandalosa a forma como, regra geral, sempre que há actos inequívocos de bullying, adia intervenções, protela inquéritos, almofada sanções e evita medidas disciplinares. E - pior, ainda - é estranho que eleja o verdadeiro bullying como uma realidade a banir da vida escolar quando, ao mesmo tempo, condescende com actos de má educação, de absoluta ausência de regras e de indisciplina com que os alunos convivem, todos os dias - entre si e para com os professores (!) - e que são "o degrau" imediatamente anterior ao bullying. Para além disso, não repreende os professores "bullies"; que também existem. E cria, nalgumas circunstâncias, enredos corporativos que protegem a escola de pais que, fundamentadamente, denunciam episódios de bullying e solicitam medidas de protecção para os seus filhos. Chegando a existir algumas situações (muito pontuais, mas, todavia, inacreditáveis) duma certa "associação dolosa" onde as direcções de algumas escolas forjam incidentes disciplinares junto de alguns alunos, vítimas de bullying, para criarem um contraponto que esvazie a responsabilidade dessa escola na demissão com que acabou por ser conivente em actos dessa natureza. Já para não falar, de um ou outro agente educativo "bully" que, para se ilibar da sua responsabilidade ou da suas omissões, ameaça as vítimas com insinuações e represálias das mais diversas. Chegando a constituir como "testemunhas" de actos fabricados para responsabilizar algumas destas vítimas, alguns dos seus colegas que, sob coacção, dão assentimento, por medo, a actos duma perversidade inaudita. Já agora, se os alunos não merecem nem agentes educativos nem direcções de escolas assim, os professores também não.
4.
Temos, portanto, uma realidade onde o alarme sobre o bullying é geral. E a distracção, diante dele, quase infinita. E, ao mesmo tempo, uma atmosfera duma hipocrisia imensa que, todos os dias, repete e repete que "as crianças são muito cruéis umas para as outras". Que, qual slogan, faz dos adultos as pessoas mais leais do Universo. Por mais que (é só um pormenor...) - ao contrário delas que, quando agridem, o fazem pela frente - eles pareçam ser das pessoas mais "qualificadas" para agredir pelas costas. Chegados aqui, estamos a regressar, então, aos amigos da onça. Com esta atenuante, que pende a favor dos pais, da confusão em torno do bullying - por ignorância ou por má fé - favorecer o dolo e proteger a ilicitude.
Os amigos da onça são, "regra geral", os melhores "amigos" de alguns dos nossos filhos. Cultivam uma "amizade" que se prolonga de um ano lectivo a vários anos. São, invariavelmente, muito "exclusivos" na "amizade", não a abrindo, em princípio, a um terceiro (e, quando isso sucede, amuam, agridem, choram de raiva ou fazem-se de vítimas). Alimentam, em conjunto com esse nosso filho, uma relação desigual onde, fazem de D. Quixote só porque têm quem faça para eles de Sancho Pança. Todavia, são (muitas vezes...) quem abre a festa de Natal da sua escola. Habitualmente, são caracterizados pelos professores como tendo "muita auto-estima". Na maior parte das vezes, têm bons resultados escolares (por mais que não convivam nada bem com o trabalho de grupo, por exemplo). E, chegados ao recreio, ora exigem uma relação a dois ora alimentam a intriga, e são maldizentes e despeitados, com alguma facilidade. Havendo muitas circunstâncias em que estigmatizam, segregam, incentivam a discriminação, estimulam o maltrato e alimentam a insinuação, (ao vivo ou nas redes sociais), quando se sentem preteridos diante da sua exigência sôfrega de protagonismo. Sempre que presumem que ela pode vir a não ser alimentada. Ou sempre que antevêem ou receiam que o seu melhor "amigo" se autonomiza ou se rebela.
Por mais que sejam, muitas vezes, muito pequeninos, vão contando com a complacência dos pais e com a condescendência da escola. Amarfanham o amor próprio do seu melhor "amigo". "Parasitam-no", habitualmente, de insegurança. E "premeiam-no" com uma atmosfera depressiva que se cola à pele e que faz com que ele se "encolha", se anule e "definhe". São - muito mais que as crianças, abertamente, violentas e que as crianças, compulsivamente, "queixinhas" - verdadeiros "bullies". Que, com a anuência de todos, se vão tornando "maus carácteres". Que precisam de imensa ajuda, por mais que dêem sinais do contrário. E que, mais tarde ou mais cedo, vão compreender, com imensa dor, o logro que foi a forma como os deixaram crescer.
Perante estes "amigos" dos nossos filhos, é ou não é razoável que, como pais, façamos de "entidade reguladora" e tenhamos uma palavra a dizer? Sem dúvida que sim! Corrigindo comportamentos. Zangando-nos, sempre que for necessário. Admoestando, se for preciso. Sinalizando esses maus actos junto dos seus pais (por mais que, por omissão ou por "vício de forma", poderão ser eles quem mais os estimule). E, no limite dos limites, interditando uma relação tóxica como essa, sempre que ela pareça eternizar-se. Para além de chamarmos a atenção da escola para o facto de alguns desses comportamentos se darem em contexto escolar. E, quando todos os apelos tiverem caído em "saco roto", responsabilizando-a - firmemente! - para as respectivas responsabilidades. Sem nunca deixar de avaliar todos os "porquês" acerca dos comportamentos passivos dos nossos filhos. Antes disso, protegendo-os, claro. Exigindo deles, sempre que necessário, a denúncia desses actos (por mais que, em muitos momentos, quem orquestra um grupo - o tal amigo da onça - não "suje as mãos"). Sem nunca perder de vista que afrontar um grupo - que, em muitos momentos, alimenta uma "violência de veludo" que não deixa nem escoriações nem provas físicas inequívocas - é muito, muito duro e, por isso mesmo, muito pouco exequível. E, sempre que for necessário, repreendendo a conivência que eles possam ir manifestando, por pânico ou por terror. Mas sempre com a consciência que actos como esse são protagonizados por meninos que, por mais que se tornem perigosos, são crianças em perigo. E sem nunca deixar de ponderar que as vítimas desses actos sofrem danos que são irressarcíveis e, muitas vezes, dificilmente, cicatrizáveis. Sempre, mas sempre, pautados com a convicção de que a violência é a pior das "escolas". E que "amizades" destas são tudo aquilo que nos leva a considerar que com amigos destes mais vale ir tendo alguns inimigos.