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O comprimido da inteligência
Surgem, regularmente, artigos sobre o metilfenidato. Chamam-lhe "o comprimido da inteligência". E parece-me importante que voltemos a conversar, muito brevemente, acerca disso

1. Por mais que os números da Direcção Geral da Saúde possam não ser inequívocos, os milhões de doses deste medicamento consumidas pelas crianças portuguesas, remetem para uma de duas questões: ou há um número absurdo de crianças estranhamente doentes ou, não estando doentes, há um número estranhamente imenso de crianças medicadas com metanfetaminas. Numa ou noutra circunstâncias, e dado os números em questão, não seria de esperar que quem supervisiona a saúde se pronunciasse acerca duma situação tão alarmante? Sobretudo quando há relatórios nacionais e internacionais que alertam para as consequências de uma tão inquietante prática?

2. É, igualmente, verdade que há inúmeros relatos de pais que declaram que esta medicação lhes é apresentada como "o argumento" para tornar os seus filhos mais inteligentes. Não fica, portanto, claro se, diante de argumentos como esses, estaremos diante de um "suplemento vitamínico" ou de um medicamento que, só por distracção, não será de venda livre. Mas, seja como for, e não querendo fazer de um argumento como este "a regra" (por mais que ele seja, infelizmente, muito frequente) não seria sensato que quem comercializa estas substâncias as afastasse de práticas que, na verdade, se aproximam de uma deriva que poderá escorregar para uma potencial charlatanice ou, mesmo, para a publicidade enganosa?


3. É claro que há uma diferença imensa entre os princípios activos de um determinado medicamento, quem o prescreve, a frequência com que é prescrito, os motivos pelos quais se prescreve e as recomendações com que se faz acompanhar essa prescrição. Ainda assim, não será razoável que nos perguntemos por que motivo o silêncio das autoridades - e o silêncio de quem regula as prescrições e de quem faz a respectiva análise, bem como das classes profissionais que convivem com este fenómeno - é tão marcante, quando seria de esperar que protegessem pais e crianças de atitudes que, manuseadas de forma irreflectida, nos prejudicam a todos? Sobretudo quando uma "medicação industrial" parece, até, descredibilizar o uso criterioso e parcimonioso que alguns não deixam de fazer com este fármaco.


4. Dizem os números que, em Agosto de 2016, o número de embalagens de metilfenidato consumidas pelas crianças terá caído para 1/3 dos números verificados em Janeiro do mesmo ano. Quererá isso dizer que haverá uma tendência outono-inverno nessa prescrição, que estaremos a falar duma terapêutica que acompanha uma reabilitação sazonal de um quadro que ora fica compensado ora descompensa, ou que a terapêutica acompanha meticulosamente os tempos lectivos e, por isso, por mais que não seja de venda livre, pareça ser utilizada como se se tratasse de um suplemento, e nada mais?


5. É, ainda, verdade que há muitos professores que reclamam ou exigem que os seus alunos sejam medicados com metilfenidato, havendo quem indique o médico que se deve consultar. Havendo, mesmo, quem se disponha a acompanhar os alunos nessas consultas. E que há turmas onde são mais as crianças que tomam metilfenidato do que aquelas que não tomam. E que há crianças que, nos dias em que não tomam metilfenidato, pedem para não ser inquiridas por não reunirem as melhores (?) condições para estarem à altura daquilo que se espera delas. Em função destas realidades, será boa prática que haja quem medique a pedido? E, num patamar como esse, onde fica a ética, os conselhos de ética e quem os regula?


6. Parece-me, também, inequívoco que esta "epidemia atípica" de hiperatividade com défices de atenção tem sido contemporânea de uma ideia de escola onde, infelizmente, as crianças parecem ter de estar, sobretudo, quietas e caladas. E tem coincidido com um tempo em que os rankings ganharam preponderância, as crianças trabalham demais, os tempos passados em contexto escolar podem ir até às 55 horas semanais, as aulas (expositivas) se esticaram até aos 90 minutos, os recreios encolheram (em muitas circunstâncias) até aos 5 minutos, e onde se legitimaram as disciplinas "de 1ª" e as disciplinas "de 2ª" e as turmas de "1ª" e as turmas de "2ª". E onde a forma como os meninos se distribuem pelas turmas é, em muitas situações, menos aleatória do que devia. E o modo como elas são confiadas, de forma casual, aos diversos professores será, digamos assim, um bocadinho, questionável. Em função de tantas e tão graves contingências, que parecem convergir umas para as outras, será que os alunos deviam ser irrepreensivelmente atentos e sossegados, apesar destas variáveis que os vão "engolindo", mesmo quando estão exaustos, têm uma agenda de executivo atarefado ou estão inseridos em turmas pouco amigáveis?

7. Não será preocupante que, a propósito das atitudes e da atenção das crianças a responsabilidade pareça ser, exclusiva e invariavelmente, delas e de mais ninguém? Não fosse este presumível "defeito de fabrico" de milhares e milhares de crianças, o sistema educativo, a escola e os professores seriam todos - digamos assim - irrepreensíveis? Isto é: a distracção será das crianças enquanto todos os outros agentes que participam na sua educação são atentos, competentes, e pacientes. Será assim? Não sendo, onde entrará, então, relativamente a estas pessoas, a prescrição de metilfenidato, em que dosagens e com que que cuidados se deve dar a sua prescrição? Não sendo assim, onde entrarão, então, as responsabilidades de quem estrutura o sistema educativo, e as responsabilidades das direções das escolas, quando organizam e distribuem o trabalho? E as responsabilidades de alguns professores (quer pelo modo como são formados, quer pela forma como não aprofundam os seus conhecimentos e as suas experiências ou pelo jeito como são deixados entregues a "uma engrenagem" onde os meios que lhes são disponibilizados, os resultados que lhes são exigidos e os apoios de retaguarda à sua actividade lectiva carecem de ajudas contínuas à sua formação), quando, contra a sua vontade, elas geram uma cascata de exigências que desabam, invariavelmente, sobre os alunos?

8. E não será, por fim, preocupante que "epidemia atípica" de hiperatividade com déficits de atenção pareça coincidir com um tempo onde muitos pais parecem ter dificuldade de exercer, de forma firme e serena, a sua autoridade; onde os resultados de curto prazo parecem ser sacrificados à vertigem mais ou menos vaidosa das notas no "aqui e agora"; onde a proliferação de explicações e de salas de estudo não pára (mesmo que os pais reconheçam que todos trabalhem para fazer "a papinha" toda aos seus filhos); onde as crianças são entretidas, a torto e a direito, com écrans por mais que os pais sejam... contra eles; onde as crianças deixaram de ser incentivadas pelos pais a estudar, a pensar, a perguntar, a duvidar e a pensar; e onde o conhecimento se mede, sobretudo, pelo repetir? E, já agora, pela vertigem de um "capitalismo selvagem" de que se alimenta, onde o poderio financeiro que ele parece viabilizar se deve dar, de preferência, em muito pouco tempo, independentemente das paixões dos alunos?

9. E não seria de esperar que, supondo que estes argumentos sejam correctos e sensatos, se ponderasse aquilo que se perde e aquilo que se ganha com soluções que mais parecem "poção mágica", e se ponderassem medidas razoáveis que promovessem transformações de fundo na educação, amigas das escolas e das pessoas?


10. Não podem estas soluções - fáceis e, aparentemente, simples (como o metilfenidato) - em vez de transformarem competências em recursos, pela vida fora, levar a que todos nos afastemos, cada vez mais, da inteligência e da sabedoria humanas, enquanto tantos pais, na sua boa fé, se acantonam numa espécie de "esperteza saloia" cujos custos os respectivos filhos já estão a pagar? E não será irónico que isso se dê num tempo em que se repete a salvaguarda dos supremos interesses das crianças e que - ao contrário do que se vai reclamando, precipitadamente, nos tribunais - a propósito do metilfenidato, não só não se escutem os seus pontos de vista como nem sequer se estarão a ponderar os seus interesses?

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