Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso website. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa política de cookies.
O meu filho não é um líder!
Nenhuma criança, que possa ser criança, é um líder

Há, cada vez mais, uma mania que se vai enraizando em relação à escola que passa não tanto por termos estudantes mas, muito mais, líderes. Líderes em potência, digamos assim. Pessoas que tenham seguidores, se preferirem. Ora, se já esta ideia de termos seguidores é estranha e (quem sabe?) pouco abonatória da nossa capacidade para pensar, isto de estarmos a querer que uma criança estude para ter sucesso para ganhar muito para ser líder e para mandar nos outros já se torna escorregadia. Ora, que uma mãe, num acesso de paixão, ache que um filho é um muito inteligente e, depois, sobredotado e, logo a seguir, um líder (“nato”), eu entendo. Mãe que é mãe é mesmo assim! (Por mais que o “espírito de liderança” do petiz lá em casa, logo a seguir ao deslumbramento dos pais, se arrisque a correr mal e, sobretudo quando o mau génio e a birra ganham “velocidade de cruzeiro”, se transforme em insolência e em teimosia) Mas que esta tendência tenha chegado à escola, que vá tomando conta de muitos pais, que haja entidades credíveis a considerar que é dos alunos com boas notas (sobretudo quando eles são separados dos “outros”) que nascem os líderes, e que haja centros de explicações que se vendem como “empreiteiros de líderes”, eu acho quase obsceno. Porque, no limite, parece que o grande objetivo da educação não será tanto criar alunos que pensem, que batalhem, que tenham ganas e garra, que duvidem e descubram, que ousem procurar e que perguntem, que deixem de exigir a si próprios ser irrepreensíveis e que assumam a humildade de serem repreensíveis. Nada disso! Aquilo que parece não é tanto que se espere que eles venham a aprender os caminhos pelos quais se possam tornar sábios. Não! Deseja-se que sejam líderes.

Mas será que já terão reparado que os líderes nunca são... “natos”? Será que já terão dado conta que, na maior parte das vezes, são corajosos envergonhados? Será que lhes terá passado pela cabeça que não arregimentam seguidores mas são surpreendidos por outras pessoas que lhes dizem: “Eu acredito em ti!”? E terão atentado que os líderes são quase sempre líderes... acidentais. E que inspiram as pessoas pela sua singularidade e pela forma brilhante como pensam por si, lhes trazem causas, convicções e paixão, e não tanto porque terão entrado numa “linha de montagem” de líderes? E que aquilo com que cativam parece ser a forma inimitável e incansável como pensam com sonho? E como verbalizam sobre aquilo que os outros se limitam a sentir de forma engonhada e encolhida? E que um líder é, em muitas circunstâncias, uma pessoa solitária unicamente porque ele pensa, comunica e luta por aquilo que a grande maioria dos outros vive de forma acomodada e preguiçosa?

Pelo contrário, esta ideia “em cada criança um líder” passa por supor que um líder conduz, manobra, persuade, manipula e, bem vistas as coisas, manda nas pessoas. Mesmo que não tenha ideias. Mesmo que seja só mesmo ele e que se ache “o máximo”. E pressuponha que nasceu com carisma, seja lá o que isso for. E que, por tudo isso, tenha como missão levar as pessoas pelo caminho do sucesso, sobretudo quando o seguem, cegamente, e o adoram. E, já agora, separem, por favor, a ideia de sucesso da de “espírito de liderança”. Mas desde quando é que o “espírito de liderança” é espírito? Será a liderança uma dádiva do “espírito santo” que ilumina, somente, alguns e que deixa no lusco-fusco tantos mais? Não é! E porque é que não se pode chegar ao sucesso pelo caminho dos erros? Serão os sábios, porventura, aqueles que menos erram ou, antes, aqueles que menos fogem de errar? Não estaremos a deixar que se colem as ideias de líder com a de sucesso como se, ao aceitarmos que haja quem transforme (?) os nossos filhos em líderes estaremos a deixar que haja quem os “ensine” a ter sucesso à boleia de todos os atalhos?

Pudesse eu sugerir aos pais um desabafo e proporia: "Por favor, sempre que sinta que, entre os seus amigos, há algum que (mesmo que seja por bondade!) esteja a 30 segundos de elogiar o espírito de liderança da respectiva criança dissuada-o, dizendo-lhe: O meu filho não é um líder!”. Nenhuma criança, que possa ser criança, é um líder. Certo? Aliás, os líderes de verdade são aqueles que parecem guardar mais de tudo aquilo que uma criança viveu, por muito mais tempo, do que as outras pessoas! Já reparou? E, fazendo assim, descanse. Por mais que não pareça tão embrenhado no sucesso do seu filho como os outros, está a dar a quem mais ama a oportunidade de o descobrir. Sem uma agenda de liderança para cumprir.

subscreva