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Para que serve a escola?
E as ilações que ninguém parece querer retirar...

Foram, recentemente, divulgados os dados das provas de aferição de 2016-2017. E, embora haja alguns resultados relevantes, relativamente aos 2°, 5° e 8° anos de escolaridade, os dados globais são, na sua generalidade, muito inquietantes. Como, por exemplo, quase metade dos alunos do 2° ciclo não conseguirem localizar Portugal em relação ao continente europeu E, em relação ao 2° ano de escolaridade, 64% dos alunos revelou dificuldades em interpretar um horário, 85% redigiu um texto com os tempos verbais utilizados de forma incorrecta e só 21% desenvolve um tema de acordo com as instruções recebidas. Ou, na prova de Fisico-Química do 8° ano, mais de 80% dos alunos revelaram dificuldades nas respostas. Ou, ainda, em relação ao 5° Ano, só metade é que consegue conjugar os verbos voar e cantar. Ou, por fim, cerca de 70% dos alunos do 8º ano não consegue localizar informação explícita no texto e tem dificuldades em reescrever frases com pronomes pessoais ou passar do discurso directo ao discurso indirecto. A haver características transversais em relação às dificuldades que estes estudantes manifestam, elas podem resumir-se a dificuldades relativamente à sua capacidade de raciocínio, à sua capacidade de interpretação, à grande dificuldade em escreverem de forma correcta, à incapacidade de resolverem problemas com fracções ou a discorrerem sobre o próprio cálculo. Ao contrário da simples reprodução de conhecimentos em resposta a perguntas directas, quando isso implica reproduzir um conhecimento.   

 

Em primeiro lugar, estes resultados ajudam-nos a perceber a mais-valia que uma prova de aferição nos dá, quando nos permite ter  uma visão “macro” dos conhecimentos e da versatilidade em relação a eles dos alunos portugueses. 

Em segundo lugar, estes resultados deviam obrigar-nos a perguntar até que ponto é que reproduzir um conhecimento será aprender. Sobretudo se, depois de memorizado, a forma como os estudantes não o conseguem interpretar ou não o conseguem relacionar com outros conhecimentos acaba por tornar pouco útil aquilo que se aprende.

Em terceiro lugar, será importante que se questione onde fica a aprendizagem do português no contexto da escolaridade obrigatória. Porque se os alunos não o utilizam de forma versátil, se não vão daquilo que sentem (ou, mesmo, do que lêem) ao modo como se expressam (de forma clara, sintética e expressiva), se não utilizam os seus sentimentos como “motor de busca” acerca do que pensam, e se  não ligam imagens, representações, afectos, abstracções e palavras de forma expedita e proactiva, então, aquilo que teremos em mãos é que a escola não os estará a preparar nem para pensar nem para agir diante das pessoas, das suas vidas e sobre o mundo. Com uma agravante: quem não sabe português adoece por não saber pensar.

Em quarto lugar, como se pode aprender a aprender sem se aprender a pensar? Como se pode aprender sem se relacionar? Como se pode aprender sem se criar? Ou seja, de que vale termos provas de aferição se - chegada a hora de retirarmos as consequências devidas destes resultados, transformando o modelo educativo e recriando a escola - parece que elas dizem, unicamente, respeito aos alunos e muito pouco a quem mais está em avaliação nestes resultados (como, por exemplo, o próprio Ministério da Educação, as Direcções Gerais e as Direcções das Escolas)? Será que quem divulga os resultados os pensa e se põe em dúvida, em nome de um futuro melhor?

Em quinto lugar, que respeito se pode ter pelo futuro quando, hoje, a escola não consegue adequar-se aos alunos do século XXI, não se tem adaptar à sua forma de ler o mundo e de pensar, não se adequa ao modo como o conhecimento se tem de tornar simples, claro e  utilitário, não dá tempo nem para estudar nem para aprender, e transforma os estudantes em alunos, como se nada mais do que os resultados devessem prevalecer no sistema educativo, e como se entrar na universidade estivesse primeiro do que aprender sobre as pessoas, aprender com os outros , e aprender para a vida?

Em sexto lugar, depois destes resultados, das tendências idênticas que se observam a nível de outros níveis do ensino, da forma como se reprova de maneira inquietante nos primeiros anos das diversas universidades, do modo como se muda de curso superior com uma frequência que deveria dar que pensar e da taxa de abandono do ensino superior, não seria de perguntarmos que escola queremos, que funções esperamos que ela possa ter, que métodos esperamos que ela incremente, e de que forma é que as diversas disciplinas se podem ligar umas às outras para que a escola volte, de novo, a ser o lugar onde se faz a história do futuro, ainda antes dele começar? Ou seja: se a escola não está a servir para aprender da forma como todos queremos que ela sirva, para que serve a escola?

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