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Só crianças. Outra vez.
a vida em estado de sítio: 45

Há uma semana, as crianças mais pequeninas estão a ir à creche e ao jardim de infância. E daqui a uma semana reabre o pré-escolar. Excluindo o espaço, tudo o resto é muito diferente para as crianças. A escola não é a mesma escola. A educadora não é bem a pessoa que lá deixaram. E os amigos passaram a ter demasiados semáforos quando se trata de se brincar com eles. Em função de tudo isso, não fiquem entusiasmados quando uma primeira semana de regresso à escola "correu bem". Como quando as crianças entram na escola, a primeira semana serve para a sentirem. E, só depois, elas reagem - aos olhos de muitas escolas, "mal", aos meus olhos, "bem": ou "encolhendo-se" muito parecendo assustadas e não “"existindo". Ou chorando (aparentemente) "por nada". Ou ficando irascíveis e desafiadoras. Uma semana é o tempo mínimo para elas darem a entender como sentem a escola: se a vivem como um regresso "a casa" ou como um "mundo novo de pessoas esquisitas" que elas têm de reaprender a conhecer. Mas pode ser o tempo de começarem a não querer ficar na escola ou a evitarem correr para a educadora ou para os amigos. Uma semana é o tempo para que elas fiquem rabugentas de manhã e inflamáveis ou dorminhocas, quando regressam a casa. Uma semana é o tempo de, algumas, "falarem pelo corpo" e as febres "esquisitas" e os "episódios virusais" entrarem em "hora de ponta". Todas as reacções são melhores que uma ideia que, receio, alguns pais e algumas escolas alimentam, próxima do "não se passa nada".

As crianças vão precisar de tempo para perceberem que educadora e auxiliares - por mais que, de máscara, se tenham tornado um bocadinho assustadoras - afinal, são suas "velhas conhecidas". Mesmo que, agora, nem sempre os olhos, a boca e o corpo falem "a mesma língua" e pareçam estar desengonçados. E de tempo para entenderem as regras e a atmosfera da escola que, agora, diferem tanto do que eram que as crianças se sentem sob um olhar de algum alerta que as faz ter demasiados "nãos" onde, antes, havia, sobretudo, "sins". E vão precisar de tempo para se reconhecerem nos amigos, por mais que alguns interpretem de forma muito própria as regras que trazem de casa, e pareçam ter perdido a espontaneidade e, agora, se relacionem a medo. E vão precisar de (muito) tempo para reaprenderem a explorar o mundo e a brincar no meio de tantos "cuidado!!!" que as levam a sentir - de forma incompreensível, para elas - terem deixado de saber ser crianças.

Uma semana é o tempo para que as crianças observem e sintam. Para que explorem as mudanças e entendam as diferenças. Uma semana chega para que elas rabujem e desafiem. E para que comecem, então, a reagir, como quando acham que as coisas perdem a graça, para si, e há coisas que lhes "arranham" a paciência.

As crianças não reagem às mudanças como se nos dissessem "Vai ficar tudo bem!". E isso é bom! Elas vão precisar de escolas e de pais muito sintonizados no seu bom senso, uns com os outros. Para que possam ser só crianças. Outra vez.

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