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Todos nunca somos demais!
a vida em estado de sítio: 13

1. Não vale a pena que lembrem a um professor que ele não está de férias. Aliás, como é que se pode estar de férias e lutar para sobreviver, ao mesmo tempo? E ter as dificuldades de todas pessoas? E perceber que, como todas elas, também os professores reconhecem que nem os pais são professores nem a família faz as vezes da escola? Ainda assim, esta é a altura da família fazer um bocadinho de escola, e da escola, na forma como não desiste dos seus alunos, fazer tanto quanto possa, de família!

2. Ser-se professor é "estado de espírito". Talvez haja quem não o perceba, mas um professor nunca vai de férias. Logo, a dificuldade deste período inacreditável que estamos a viver - quantas vezes os nossos filhos, em vez de falarem da história, têm a sensação de a estar a viver e a contribuir para ela, todos os dias, como agora? - passa por todos aceitarmos que não temos as condições indispensáveis para trabalharmos; todos percebermos que (mais do que nunca!) precisamos todos uns dos outros; e, por tudo isso, precisamos que se aprenda com todas as formas que temos à mão. Muitas delas que nem sempre a escola, no seu dia a dia habitual, reconhece como úteis.

3. Os tempos que estamos a viver ajudam-nos a perceber - agora, sim, com clareza - que todos os alunos têm necessidades educativas especiais. E que, mais do que nunca, esta é a altura de falarmos de uma verdadeira "educação especial". Não como se aos alunos faltasse esta ou aquela qualidade. Mas porque a um professor se torna indispensável demonstrar o quanto pode - ele mesmo - ser especial. Especial a ajudar as crianças e adolescentes a pensar o mundo com cada uma das matérias que lhes ensina. Especial a permitir que, sejam quais forem as barreiras que se coloquem a um contacto regular com os seus alunos, um professor vai ter de ser criativo e audaz na forma como comunica com eles e os ensina. E especial a ajudá-los. E especial sempre que percebe que um professor especial não "tira dúvidas". Incentiva-as! Discute-as! E aprofunda-as! E especial, finalmente, quando põe toda a gente a resolvê-las como se esse fosse só mais um mistério diante do qual todos nós queremos que eles cheguem ao espanto. Mesmo que uma matéria seja simplesmente o pretexto com o qual se luta contra o confinamento.

4. Mesmo que haja em si qualquer coisa de um bocadinho "solitário", palavras como "isolamento" ou "distanciamento" não fazem parte do vocabulário de um professor. Muito menos a ideia de um "ensino à distância"! Sobretudo quando um professor sabe que a sua primeira função é descobrir formas de estar perto. Sempre mais perto! Nunca menos do que perto. 

5. Na verdade, estamos fechados mas estamos ligados. E, hoje, mais do que nunca, a família e a escola, e os professores e os pais percebem que é porque contamos todos uns com os  outros que os nossos filhos contam mais. Contam, do verbo existir. Contam do orgulho de contar. E contam no sentido de estarem hoje a construir uma memória de dor - mas, também,  de coragem - que irão transmitir a muitos outros pela vida fora. Explicando-lhes, sempre que tenham dúvidas, que todos contamos. Ou, por outras palavras, que todos nunca somos demais!

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