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A adolescência está na moda
Porque motivo é que ser “diferente” parece ser tão indispensável aos adolescentes?

Às vezes, como a tantos de nós, incomoda-me a forma como os adolescentes não perdem uma oportunidade para afirmarem a sua vontade de “serem diferentes”. Para se afirmarem pelas suas diferenças. Por mais que fiquemos com o mal-estar de as diferenças que reclamam serem, por vezes, formas muito pouco singulares de serem “diferentes”. Ocasionalmente, fica-nos até a sensação de muitos deles serem “diferentes” duma forma muito decalcada uns nos outros. Seja no modo como adoptam um estilo de vestuário ou no jeito como se “barricam” em sinais, adereços ou num vocabulário. Parece tudo um bocadinho “clonado”, para que, intimamente, possamos sentir que - sim! - eles são diferentes.

A primeira questão que se coloca será: porque motivo é que ser “diferente” parece ser tão indispensável aos adolescentes, quando eles se querem afirmar, como pessoas? É claro que “diferentes” significa, à primeira vista: “em quase tudo, distintos dos pais“. Como se reconhecerem-se neles ou identificarem-se a eles fosse tributado com “coimas” altíssimas à luz dos seus próprios olhos. Mas, depois, serem diferentes, já quando se comparam com outros adolescentes, parece ser um último reduto, mais ou menos exclusivo, através do qual se tentam distinguir daqueles que eles criticam ou repudiam. Seja como for, e com todos os “descontos” com que que “ser diferente” pode estar relacionado, “ser diferente” pode vir a “equipar” a própria adolescência. Por mais que esta ânsia com que os adolescentes reclamam as diferenças tenha tudo a ver com o modo como os transformamos, a quase todos, em “produtos normalizados”.

Mas, afinal, não somos todos diferentes? E, já agora, como se pode ser “diferente” sem se ser independente? Sem se pensar pela própria cabeça? Ou, simplesmente, sem se pensar? Como se pode ser diferente quando todos temos vindo a aceitar que a “boa educação”, com que se pode falar de tudo sem se magoar em quase nada, vá dando lugar ao “politicamente correcto”, tão mais amigo da falsidade? E, por favor, não me interpretem mal. Eu não estou a afirmar que os adolescentes não pensam. Pensam. Mas as vezes em que escutamos aquilo que eles pensam são raríssimas, sobretudo quando eles o fazem a respeito de nós. o deveriam fazer ao pé de nós. E as vezes em que acarinhamos que pensem pela sua cabeça são, ainda, menores. Aliás, como é que pode ser justo que nos incomodemos com a forma como eles parecem demasiado iguais uns aos outros e, depois, quando nos interpelam - mesmo que o façam com alguma demagogia - acabamos, apressadamente, a afirmar que lhes devemos “dar o desconto” porque, seja o que for que eles nos digam, acaba por nunca nos merecer a seriedade que isso devia ter?

É por isso que, na maior parte das vezes, acho que nos relacionamos duma forma demasiado encolhida diante da adolescência dos nossos filhos. Não estamos de acordo com a idade em que têm o primeiro telefone mas “engolimos em seco” e cedemos nisso. Não concordamos com as horas da noite em que regressam a casa, de sexta para sábado, mas, mesmo que seja sob protesto, “vamos na onda”. Não aceitamos que eles comam na sala, com um tabuleiro sobre os joelhos, mas as horas do jantar da família vêm depois das explicações ou dos treinos e vai-se andando. Às vezes, também parecemos “ser diferentes” sendo “iguais”. E pergunto-me onde é que isso os ajuda? Às vezes, “encolhemo-nos” porque os adolescentes dominam as novas tecnologias, são mestres nas redes sociais, falam inglês melhor que nós, aderem à mudança duma forma, aparentemente, mais aberta e adoptam formas de vestir, de falar e de estar que são, vezes sem conta, replicadas por nós. E é claro que isso não é tudo mau. Mas parece que todos vivemos numa atmosfera do género “a adolescência está na moda”. Mas não devíamos nós, os adultos, a “estar na moda” para os adolescentes? Não devíamos ser, muito mais vezes, o seu referencial de autonomia, de liberdade, de verticalidade, de ousadia e de sensatez? Não devia a forma como pensamos ser “a coordenada” com que os desafiamos a pensar? Seria mau que fosse assim?

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