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A felicidade dá-me azar!
Mas serão os jovens tão diferentes dos seus pais na forma como, ao mesmo tempo que se sentem apáticos, afirmam a sua felicidade?

Os adolescentes* fumam menos. Têm relações sexuais cada vez mais tarde. Consomem menos drogas. Fazem menos bullying. Mas não gostam da escola. Têm cada vez mais amigos virtuais. Consomem mais álcool. Assumem comportamentos de risco. São, socialmente, cada vez mais mais apáticos. Mas sentem-se felizes! Ora, pode-se ser feliz e apático, ao mesmo tempo? Não pode! Logo, das duas, uma: ou eles iludem-se, descaradamente, em relação à sua felicidade; ou acreditam mesmo que são felizes e a apatia serve de “papel absorvente” para disfarçar tudo o resto que vai mal em si. Ah! Ou mentem nos inquéritos, claro.

Seja como for, os mais adultos chegaram-se logo à frente para criticarem a apatia, que sentem ser a lacuna mais grave nos jovens. Mas serão os jovens tão diferentes dos seus pais na forma como, ao mesmo tempo que se sentem apáticos, afirmam a sua felicidade?

Já agora, o que tornará os jovens tão indiferentes às causas sociais (é esse o resultado da apatia, não é?): a “crise dos valores”? A demagogia e o populismo da maior parte dos políticos? A forma distanciada com que a Igreja fala para eles? O expansionismo da ganância e da vaidade que lhes alimenta uma ideia de “lucro fácil” da vida que, afinal, não corresponde aquilo que eles sentem que lhes “vendem”. Ou o conformismo dos seus pais, que parecem ter “empacotado” todas as suas características adolescentes mais saudáveis e, agora, se resumem a resmungar, como se nenhum dos seus sonhos tivesse amanhã? Eu acredito que se os pais fossem diferentes os adolescentes não seriam tão apáticos! Por outras palavras, como podem os adolescentes ter fé, ter esperança ou acreditar, simplesmente, se aqueles em quem acreditam desistiram de acreditar? Em si próprios. Nas pessoas. No mundo. E, até, naquilo que os filhos serão capazes de vir a fazer?

O mais grave será, no entanto, esta ideia utilitária da felicidade. Do género: “Se tenho tudo aquilo de que preciso, logo... sou feliz” que parece iludir os adolescentes. Será a felicidade um estado acomodado ou, antes, uma ideia, inquieta e acutilante? Será que é a felicidade que deve vir ao nosso encontro ou terão de ser eles a trabalhar para ela? Não pensarão eles que a felicidade é um presente muito mais do que uma conquista? E, ao repetirem que “a vida é sofrimento”, não será que os pais que lhes dão a entender que, quando muito, ser feliz é o contrário de estar a sofrer? E não estaremos todos a alimentar uma ideia de felicidade do género “one man show”, como se fosse possível ser-se feliz sozinho quando, na verdade nada é assim?

Talvez não seja uma questão de mentirem. Não! É a ideia de felicidade - virtual - que lhes dá azar.


* Conclusões do Health Behaviour in School-Aged Children 2018, financiado pela Organização Mundial da Saúde, que em Portugal é levado a cabo, desde 1996, pela equipa Aventura Social da Faculdade de Motricidade Humana, (muito bem) liderada pela Margarida Gaspar de Matos.

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