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A minha vida está uma porcaria!
E não tenho a quem desabafar

A minha vida está uma porcaria! É o cabelo que me dá cabo da cabeça, porque é oleoso. É o corpo que é estranho porque se desengonça e se desmancha. É a escola que me dá seca e, não fossem os recreios, só me apetecia “cortar os pulsos”. É o meu pai que acha que eu sou um mimado e passa a vida a atazanar-me a paciência e a mandar-me trabalhar. É a minha mãe que me pergunta 200 vezes: "Estás bem?"; "Se não estás diz à mãe, sim?... Que a mãe resolve...". E, depois, não pára de me azucrinar a paciência com as coisas que eu deixo desarrumadas, não-alinhadas e mal amanhadas. São os meus amigos que estão “na boa” enquanto eu me sinto um "mete nojo". São os tios e os amigos dos meus pais, que vou vendo por aí, que a primeira coisa que querem saber de mim é: "Então, e a escola? Como é que vai?" São os meus avós que não permitem que eu esteja enxofrado e com vontade de divórcio para bem longe de casa "porque o pai só te chama a atenção porque gosta de ti". É o livro de matemática que deixei gostava eu de saber onde e, agora, estou em contagem decrescente para “levar na cabeça” quando lhes disser que o dou como “morto e enterrado”. É a alta confusão em que está o meu quarto quando, até ontem, eu juro que me orientava na minha desarrumação e que, depois de mo arrumarem - juro! - tem tudo fora do sítio. E sou eu que, tenho dias, em que só faço porcaria, só como porcarias e não passo duma porcaria. A sério, às vezes, fico farto do lado foleiro da minha vida! Mas, como um mal nunca vem só, ninguém me reconhece o direito ao desabafo. E as coisas acabam numa alta gritaria com os meus pais a dizerem que “tenho tudo” e "mimimi". Como se um desabafo contra os dias foleiros fosse uma ofensa. Ou como se se sentissem criticados em relação aquilo que eles me deviam ter dado. E ninguém me permitisse o milenar direito humano à pieguice e à queixa. (Eu sei. Posso sentir-me uma porcaria, mas no fundo ainda digo coisas direitas.)

Então, por favor, esclareçam-me: porquê? Porque é que o direito ao desabafo contra os dias foleiros tem de ter uma determinada idade para ser feito? Porque, tirando os adolescentes, ninguém mais se acha uma porcaria?! A sério?! Ou será que aquilo que se ganha com a idade se perde na bravura? Porque é que as pessoas, quando crescem, ficam demasiado presas às suas cenas e, quando se dá por isso, já cai mal um "assumam-se!", do género: "Aproveita-me bem com mau humor porque aquilo que é bom passa depressa?". Não. Não está nada claro para mim porque é que, quando nos sentimos foleiros, não podemos ser todos “adolescentes de primeira viagem”. Ou porque é que ninguém entende este jeito de "baby on board" de um cidadão que, sempre que se lamuria, só está a pedir colo.

Eu, se mandasse, obrigava a que todas as pessoas, sempre que tenham dias foleiros, se assumam sem filtros.  Mais ou menos desta maneira: "A minha vida está uma porcaria!". Dito devagarinho. Muitas vezes, de preferência. Uma sílaba de cada vez. Eu garanto que limpa a alma e alivia!

Bem vistas as coisas, sempre que um adolescente, num dia mau, acha que a vida não tem graça nenhuma isso não é mau-feitio. É um apelo que vem de dentro. O degrau que lhe falta até chegar a zen. Que faz de si próprio uma espécie de beauty-mood guru. E que, muito tristemente, ninguém entende.

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