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A vaidade dos adolescentes
Por mais que o engenho com que opinam acerca de quase tudo só seja possível porque ainda não viveram... quase nada

Gosto da vivacidade dos adolescentes e do modo como o "coração, às gargalhadas", lhes salta pelos olhos. Gosto da forma como se despenteiam, com cerimónia, antes de saírem, e da timidez com que dão nas vistas. Do jeito crítico com que seleccionam as sapatilhas, os jeans ou os tops. Da maneira engenhosa como se inteiram sobre as marcas, como compõem um estilo ou adoptam uma espécie de idioma que se estende dos termos de todos os dias ao exercício minimalista das mensagens. Gosto do tom de "rebeldes com maneiras". E, até, da forma como acarinham causas inovadoras, por mais que o engenho com que opinam acerca de quase tudo só seja possível porque ainda não viveram... quase nada.

Mas já não gosto de alguns dos pais dos adolescentes: quando idolatram o crescimento e, diante dele, se minimizam, como se a melhor instrução dos filhos significasse mais saber quando legitimam "a idade do armário" e, a pretexto dela, se demitem, pela passividade, de definir regras; quando reagem como se os filhos fossem "pais tiranos" e mais mimo lhes desse o direito de ir dos esgares de arrogância às más respostas, num tom que  arrepia e magoa; e quando, enternecidos pelo seu crescimento, acarinham - sem limites - a sua vaidade.

Se muitos adolescentes transbordam em vaidade a culpa também é dos pais. Em primeiro lugar, porque não lhes terão dado a entender a diferença entre o orgulho e a vaidade: a vaidade é um sentimento de triunfo sobre os outros; o orgulho a consciência de que, com a ajuda deles, triunfamos sobre nós. Em segundo lugar, porque talvez não os tenham levado a compreender que ninguém cresce sozinho e à margem das experiências de humildade. E, finalmente, porque não lhes contaram a história dos avós, eles não terão descoberto que lhes falta quase tudo para estarem ao nível do estoicismo, da abnegação e da generosidade com que os avós deram aos pais as oportunidades que os adolescentes viram multiplicadas (qualidades sem as quais tardarão a descobrir que admiração, humildade e orgulho casam entre si).

Preocupa-me a vaidade em muitos adolescentes. E preocupa-me a forma como, aos olhos da vaidade dos pais, muitos foram, primeiro, bebés de "personalidade vincada", depois, crianças "sobredotadas" e, finalmente, jovens tecnocratas de mochila que, se a sua "cotação" fosse revista em baixa, talvez percebêssemos todos que eles são só... adolescentes (a tempo de não se decepcionarem quando descobrem que nem tudo o que aparenta ser crescimento será crescer). Preocupa-me que, por causa dela, não sejam mais autónomos, mais afoitos, mais engenhosos, mais tolerantes e mais proactivos. E preocupa-me, por fim, o modo como, em função dela, todos parecem esperar que eles sejam mestres (!) aos 23 e ídolos antes dos 30 (como se a expectativa de muito dinheiro, a curto prazo, substituísse a paixão duma escolha, sem a qual ninguém se torna nem inimitável, na forma com que liga aquilo que é a tudo o que faz, nem raro, sempre que anseia pelo reconhecimento antes de saber ser reconhecido).

É por isso que gosto dos pais que se orgulham dos filhos e dos filhos que se orgulham dos pais. Porque uns e outros - ajudando-se mutuamente - triunfam sobre os seus erros e se enamoram pelo futuro. Mas não gosto dos pais que transformam filhos nos troféus com que triunfam sobre os outros. Se me perguntar porque motivo são esses os pais que mais temem o futuro?...(Vai-se zangar...) Porque não toleram que exista ninguém melhor que eles.

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