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Adolescência depois dos 30
Porque não é possível crescer sem se ser adolescente...

Há todo um conjunto de asneiras que se fazem na adolescência que, sempre que os filhos não as vivem, deixam os pais preocupados e a reclamá-las, como se fossem indispensáveis. E, mal elas acontecem, os põem à beira dum ataque de nervos, como se não deixassem de ser exageradas. A pergunta que, a partir daqui, se deve pôr será: deve a adolescência ser sinónimo de asneiras? Se sim, que asneiras são essas? E, já agora, porque é que tem de ser assim que as coisas se passam? 

Antes da adolescência se ter transformado numa espécie de “passagem tecnocrática” da infância para a idade adulta, costumava-se considerar três momentos que a tornavam característica: “a idade do bicho do mato”; “a idade do armário” e “a idade da parvoeira”. A primeira, que resultaria da puberdade, e que, à boleia de transformações físicas exuberantes, o corpo parecia revoltar-se contra o adolescente, e ele ganhava nariz, ombros e borbulhas; ou ancas, peito e menstruação; e, de pessoas afáveis, ele se tornava um bocadinho “anti-social”, se fechava no quarto, falava por murmúrios e se escondia atrás do cabelo. A segunda, em que a cabeça dava um safanão, e ele acharia que o mundo é um equívoco pegado, que os adultos (à medida que vão crescendo) terão passado de apaixonados a cínicos, e que - de Deus até aos pais, por ali abaixo - anda toda a gente a gozar sempre que lhe exige uma coisa e faz outra. E, finalmente, a terceira, em que ora se experimenta tudo e mais alguma coisa, ora apetece fugir de casa ou desaparecer ou, mesmo, morrer; e onde os ímpetos de “sindicato da adolescência” fazem com que os pais vão perdendo a autoridade e se passe do “posso sair hoje?” a “é na boa eu sair” (ou, para os mais ousados: “hoje vou tomar um café, depois do jantar!”); e onde ser-se "teenager inconsciente“ - quando se sai à noite, na busca de mundo, de histórias de vida e de... asneiras - se transforma numa espécie de “imagem de marca”.

Hoje, os adolescentes passam por estes três degraus “português suave”. Mais importante que a própria adolescência, a universidade tem feito com que o grande objectivo da vida de um adolescente seja uma carreira de sucesso (o que, por outras palavras, quer dizer que se espera que ganhem muito dinheiro em muito pouco tempo, por mais mais que eles, depois de crescerem, sejam menos autónomos e mais exigentes, por muito mais tempo!) enquanto os pais, fazendo de conta que não ligam aos resultados escolares, repetem que só querem que os seus filhos sejam felizes (à margem da adolescência, claro). No entretanto, todos os “tons fortes” da adolescência vão adquirindo uma tonalidade de “produto normalizado” com que todos convivemos como se fosse normal que os nossos filhos não tivessem tempo para ser adolescentes, e como se a própria adolescência tivesse qualquer coisa de jurássico que já não se compadece com o mundo moderno.

Ora, se não é possível sermos adultos saudáveis sem termos sido crianças (e sem preservarmos a infância, para sempre), não é possível crescer sem se ser adolescente. Em parte, porque precisamos de ir ao exagero de alguns pontos de vista para assumirmos a sensatez como um exercício de sabedoria com que pensamos connosco e com outros, ao mesmo tempo. Em parte, porque as grandes questões da adolescência - em relação às pessoas, ao mundo, aos valores, ao amor, à humanidade, à religião ou à política - não se esgotam na adolescência (antes nascem com ela) e são indispensáveis para se chegar à singularidade humana, à liberdade de pensar e ao amor pela vida, pelas pessoas e pelo futuro.

Porque é que eu acho que vivemos indiferentes em relação ao facto dos nossos filhos desbaratarem a sua adolescência? Porque talvez tenhamos sido adolescentes mal-sucedidos! Mesmo quando os precipitamos para uma adolescência que não é a sua. Mas o que me inquieta, mesmo, são os adultos que nunca foram adolescentes e que, por isso mesmo, ora querem transformar o mundo numa “tirania de trombudos” (como se as pessoas sérias tivessem de ser sisudas e “bichos do mato”) ora, depois dos 30, tentam ir da “idade do armário” à “idade da parvoeira” num corrupio de vezes, mesmo quando não tiram a gravata, manifestando, em muitos dos seus gestos, tudo o que lhes falta para serem sábios e sensatos.

A adolescência depois dos 30 faz bem? A “fórmula” da saúde mental deveria ser: “antes adolescente por um dia do que trombudo toda a vida”? Não! A haver uma “fórmula”, ela deveria ser:

 

  • Deixem de fazer da escola uma tarefa mais indispensável do que a adolescência dos vossos filhos;
  • E reconheçam que só quando eles são adolescentes quando devem ser mais eles vos darão adolescência à vida que, por vezes, parece faltar.
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