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Alguém que lhes diga
Nunca somos bons

É verdade que os adolescentes têm uma relação difícil com o banho, depois das aulas de educação física. Não porque gostem de ficar "a levedar" em suor mas porque o balneário é das zonas mais duras de toda a escola. Quer pela forma como se comparam ou pela forma como são gozados ou humilhados, entre si. Seja como for, os adolescentes têm direito a exigir que todas as pessoas da família madruguem e se arranjem, com tempo e parcimónia, para que eles, com mau humor, deslizem da cama para o duche, sem um minuto de espera, que seja. Para que, depois, "relaxem" o stress de um novo dia com muitos litros de água (que nunca entram nas quotas dos seus ímpetos ambientalistas).
Por tudo isto, os adolescentes têm, também, direito a ser um bocadinho "lesmas", todas as manhãs. Porque o nariz não pára de crescer. E, como se isso não chegasse, há sempre várias borbulhas que é necessário espremer, antes de disfarçar o que ficou delas, com mais um creme hidratante e um pouco de base.
E têm, também, o direito a hesitar sobre aquilo que devem vestir. Nem que, para tanto, experimentem todas as roupas (meias e ténis incluídos) e, depois, as abandonem como destroços entre o chão e a cama. Seja como for, podem, também, teimar que os jeans jamais se sujam e que aquele buraquinho das sapatilhas, que nunca descalçam, é tão microscópico que parece, até, fruto da cabeça dos outros.
E têm direito a não ter frio! E fazem com que, até no inverno, uma mera t-shirt seja mais que suficiente para ir de casa à escola sem se ficar de nariz fanhoso e com as mãos tão geladas que não se consiga nem escrever.
E têm (é bom não esquecer!) direito a tecnologia de nova geração. Porque as mensagens escritas, na aula não os perturbam: pelo contrário, ajudam à concentração. E, então quando estudam? Mensagens, música nos headphones e matérias escolares fazem um "3 em 1" amigo - como todos sabemos - da atenção e do sucesso. Aliás, as sms são a forma de se socializar entre a hora em que acordam e o momento em que se deitam, mesmo quando atropelam o sono, uma noite atrás da outra, para acompanharem nas insónias e na sua insolvência amorosa os melhores amigos, noite dentro. Escrevem em mensagens todas as palavras que poupam nas conversas com os pais, é um facto.

Eu admito: gosto dos adolescentes! Do seu lado leal e sério, quando conversam, mesmo quando são demagógicos, todos os dias. Gosto da forma enxofrada com que nos põem à prova e, como vão do Rezingão ao Calimero num quase-nada. E gosto da forma como resistem a conversar e do modo como quase se irritam por não conseguirem conter um sorriso, depois de sermos irónicos para eles. E do flash com que vão de certinhos a insolentes e esperam, por parte daqueles que admiram, pelas regras e pelos argumentos que, logo a seguir, desbobinam sobre os irmãos mais novos, como se pensassem nas coisas com método e delicadeza. E gosto do modo como abraçam causas e ignoram o que é enfadonho. E rebuscam os slogans, quer quando se dizem desmotivados (como se isso fosse uma virose à qual fatidicamente é impossível escapar) como quando "bloqueiam" (que é uma forma, com "efeitos especiais", de falar do medo de falharem, de não serem capazes e, até, do medo de ter medo). E gosto, finalmente, do lado batoteiro com que vão a jogo. E "comem a relva" (e jogam com a cabeça, com o corpo e com a alma), sempre que sentem que ganham "de caras", e se refugiam na culpa, na preguiça ou na burrice (dos outros!), sempre que o empenho, o brio, a garra ou a tenacidade se constipam ou evitam competir com um colega ou fogem de medir forças com um adulto.

E é chato ser adolescente. Porque tem de se aturar os pais aos lamentos, mais ou menos em surdina, contra a dificuldade da adolescência dos filhos, quando não há tarefa que nela mais doa do que perder os pais. Perder o seu lado que, bem esgalhado (e em bicos de pés), parecia levá-los quase a tocar nas nuvens, e que parecia nunca se cansar, nunca se desapaixonar, nunca ceder na honestidade e na coerência (mas que se vai esboroando, aos bocadinhos). Perder o "dedo que adivinha" com que foram fazendo um bluff atrás do outro mas que, num abrir e fechar de olhos, passem a desconhecer os filhos, não ousem mais adivinhá-los, e cedam aos slogans dos outros, aos medos dos outros e à adolescência que não tiveram. E perder o seu sentido de justiça - e a autoridade, que vem logo a seguir - parecendo (pais e filhos) ouriços assustados que tentam abraçar-se.

E é chato, finalmente, ser adolescente porque todos os ensinam ao contrário. Ninguém lhes diz que não há carreiras de sucesso se uma pessoa não for paga para brincar. Se não for atrás duma paixão. Se não se atrapalhar e baralhar um ror de vezes até que as suas escolhas passem a ter a sua cara. Mas que, por isso mesmo, é preciso trabalhar muito para encontrar uma paixão. E que só mesmo os batoteiros esperam que as paixões lhes caiam no colo ou que cheguem de surpresa (sobretudo quando dizem que, primeiro, precisam de ter a certeza acerca daquilo em que são bons para que, só depois, darem o melhor de si em função disso). Alguém que diga aos adolescentes que nunca somos bons! Que sem paixão não há garra e sem sonhos se fica à porta do futuro! E que somos, todos nós, adolescentes que nos vamos construindo. Que a sabedoria é uma forma de aproveitar os erros. E que, sim senhor, são precisas muitas horas de "banho", de desafio (e de manha e de lábia, até), para que, com garra, e de sorriso nos lábios, se meta no bolso a paixão e o futuro!

 

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