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Aos 14 – confirma-se – as alterações climáticas batem todos os recordes de temperatura...
E eu vivo os dias a apaixonar-me

Aos 14 - confirma-se - as alterações climáticas batem todos os recordes de temperatura e, por causa disso, acho que me apaixonei vinte e nove vezes só neste último Verão. Não são mais nem são menos do que aquilo que eu esperava. Mas aconteceu. Não fosse não acreditar em bruxas e em coisas assim e ia jurar que aquilo que se passa no meu coração é fogo posto.

Reconheço que vinte e nove vezes, até agora, talvez não acentue um lado premium do género: “és o amor para toda a minha vida”, que supunha ter em mim mal eu me apaixonasse. Mas há pessoas que, logo que as vimos, parecem nossas conhecidas. É química, suponho. E isso atrai. (É estranho, eu sei, mas uma pessoa habitua-se a viver com isso.) Só que, depois das primeiras vinte por quem me apaixonei, passei a recear que haja, também, pessoas que, ainda antes de as conhecer, terão tudo tudo para dar certo comigo. E passei a ter medo do meu coração. Há dias em que eu penso que tudo isto resulta duma enormíssima falta de critério. Talvez seja... E há dias em que me sinto quase inflamável. E não percebo. Mas, seja como for, fiz tudo como manda o figurino. Primeiro, uma pessoa começa sempre com “Olá?”, claro. Depois, quando se enche de brios, aventura-se por perguntas mais íntimas. Como: “És de onde?”, por exemplo. A seguir, quando já se criou um clima propício para um “coração escancarado” vai-se mais longe. Até: “Estás cá com os teus pais?”, ou qualquer coisa do género. E, depois, se tudo correr de forma exemplar, dá-se o salto para o inevitável: “Queres ser minha namorada?” Tudo com calma e “à séria”. Respirando fundo e sem precipitações, portanto. E falando por telepatia, sobretudo. Como nos filmes! Talvez quando eu chegar à trigésima paixão tenha mais sorte... Mas, até agora, népia; zero! Nada corre bem. É karma! Não sei se é das dioptrias, do aparelho dos dentes ou duma ou de outra borbulha. Às vezes, acho que o problema não sou eu; são os astros. Parecem todos alinhadinhos, como quem leva a bola bem controlada até à “cabeça da área” e, depois, quando se trata de “chutar para golo” e de eu falar como quem corta a respiração, há sempre um astro que fica aflitinho para ir à casa de banho, sai do alinhamento, e tudo volta à “estaca zero”. Quem acredita nos astros devia ter 14 anos e a mania passava-lhe num instante.

É claro que há quem diga - tentando humilhar-me, claro - que as paixões, aos 14, são pouco mais que “casos”; ou coisas assim. Confere. Mas são “casos-sérios”. E eu que o diga! Tirando as vezes em que imagino todas as “namoradas” que eu já tive, não faço mais nada nas férias. Ando esgotado e com os nervos em franja. E sempre a abrir a boca, de sono e de cansaço. Ah!, e com um olhar de “sexta-feira”, diz a minha mãe. Mas suponho que será de sexta-feira à tarde porque o “olhar de sexta à noite” da malta minha amiga é, segundo eles, 3D. Top! Definitivamente.

Há, também, quem defenda que aos 14 ninguém se apaixona. Imagina, quando muito, as paixões. Serão paixonetas; e nada mais. Ora, isso duma pessoa se “apaixonetar“ pode ser verdade; mas também não é uma coisa tão insignificante como se diz. Há uma diferença entre uma paixoneta e uma paixão, sim. Uma paixão é um estado intenso de adrenalina; e uma paixoneta uma dieta detox de hormonas. Com um impacto no coração próximo daquele que distingue a Coca-Cola original da Coca-Cola Zero: zero de açúcar mas com todo o sabor. Qualquer coisa como isto. Achei eu!

Ainda assim, não estou para alterações climáticas. Isso - sim! - é claro.

*crónica publicada na secção P2, do jornal Público, de 28 de Agosto de 2018. Link na imagem

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