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As respostas tortas
Implicam todo um engenho

O engenho de "responder torto" é como as borbulhas, na adolescência. Surge à boleia dos 12 e dos 13. Regra geral, de um momento para o outro. Muitas vezes, com o auxílio de uma "cara feia". Com uma pitada de amuo a acompanhar. E com o desconforto do mundo estar virado do avesso.

"Responder torto" não chega, ainda, aos murmúrios ou ao "falar para dentro", que faz de um adolescente um manifestante capaz dos maiores burburinhos... sem abrir a boca. E que deixa os pais à beira do desvario. “Responder torto” não fica ao nível do "Siiiim...", com enfado, d’ "O que foi?..." ou do "Já vou!..." arrastado que fazem com que os adolescentes recomendem “muita calma” aos pais, ao mesmo tempo que se descrevem como muito capazes de procrastinar, como se isso só estivesse ao nível de um sobredotado. O que, a exemplos das séries que eles vêem, quase parece ser vivido como uma qualidade "fora de série" que os coloca no patamar dos melhores "produtos importados".

"Responder torto" não é, também, "ficar bravo". Tem o seu quê de bravura, claro. Em "português suave"! Não implica, ainda, que se deite fumo pelos ouvidos. Nem que o olhar chispe com faúlhas de raiva. Mas tem um jeitinho de advertência como se, sem nunca o dizer, um adolescente agradecesse imenso que não o azucrinem. Não é uma resposta atrevida. Nem é insultuoso, como se nos chamasse "boomers" ou "cotas". Mas que nos sentimos como se tivéssemos sido despromovidos (e fôssemos desprovidos, também!) isso sentimos. É como se deixássemos de ser ou "Querida mãe" ou "Pai-herói" e, de um dia para o outro, fôssemos, sobretudo, uns chatos. O que deslustra. E amarrota um bocadinho o brio - imaculado! - do amor dos pais.

"Responder torto" é, todavia, responder. Não é ignorar. Não é ficar desgovernado. Nem bater com os pés ou com as portas. É, quando estamos na sala, mandarem-nos ir à cozinha vermos se o nosso adolescente la está. O que magoa quem, como os pais, sente nos mimos que recebe o seu verdadeiro factor de crescimento.

Na verdade, só "responde torto" quem "fala direito". Muitas vezes, quem "fala a torto" e a direito. Vendo bem, quando um adolescente nos "fala torto" a ideia não passa por nos magoar. Mas, à conta de ter a noção de que não pode dizer tudo aquilo que o calor das hormonas lhe recomenda que diga, "falar torto" leva-o até "meio da ponte". Por um lado, responde. Por outro, faz-se desentendido (o que é uma arte!) e nunca diz tudo. Nunca se põe com a birra de ter de reclamar sempre a última palavra. Mas não engole em seco. "Responde torto". No final, o que nos magoa é que, naquelas resposta, fique no ar uma atmosfera do género: "Ninguém me percebe!" que, quando nós amamos o adolescente em questão, faz com que o nosso amor pareça estar a dar para o "torto". Que nos arrasa com os nervos, diga-se. E nos faz sentir saudades da altura que ele era bebé. E tinha só olhos para nós. Ah! - é só um pormenor - e tudo aquilo que lhe disséssemos estava sempre muito bem! Claro...

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