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Deixar de falar com o pai
É normal que um adolescente, após uma discussão, bata com todas as portas que se interponham entre si e a sua ira

É normal que um adolescente, num acesso de assanho, se enfureça. É normal que, de súbito, “perca” a razão. E que, a meio duma discussão - regra geral, por quase nada - tenha um gesto intempestivo. Faça um tremendo olhar de raiva e se levante, num impulso. E, quando parecia que quase podia bater nos pais, é normal que saia, de rompante, e, entre a sala e o quarto, que bata com todas as portas que se interponham entre si e a sua ira. A seguir, é normal que se barrique entre o computador e a música. Que se proponha não comunicar a não ser que o faça por uma espécie de murmúrios. Às vezes, por um “grunhido” indecifrável. De preferência, sempre mal-humorado e rezingão. E, como “teria” de ser, que deixe de falar com o pai.

Deixar de falar com o pai é uma espécie de emancipação muito mais séria para os adolescentes do que fumar às escondidas. Deixar de falar com o pai tem o seu quê de iniciação para a vida adulta. Serve para um adolescente se dar ao respeito. Encher o peito de ar e ser “glorificado”, junto dos amigos, como uma “estrela” em via de ascenção. Um pessoa de jeito, portanto. Sobretudo quando, a meio da tarde, confidencia que deixou de falar com o pai... desde o almoço.

Eu consigo gostar, de certa forma, dos adolescentes que deixam de falar com o pai. Que passam por ele e não lhe falam mas, ao mesmo tempo, num dialecto indecifrável, não deixam de lhe dizer: “bom dia!”. E gosto daquele “apanha-me se puderes” que acontece quando o pai entra na sala e um adolescente sai. O pai passa pela cozinha e um adolescente evita lá entrar. Até que se sentam os dois à mesa e um e outro quase fazem piruetas com os olhos e se evitam mirar. E fazem uma dança ritual para ver quem é o primeiro a inaugurar o bolo de chocolate que, em virtude de tamanha tensão, só lhes traz ânsias, “nervoso” e azia. E, depois, há sempre um telemóvel ao qual se deita o olho, para não reconhecer que se está a ver o mesmo programa do pai quando, por acidente, um e outro repartem o sofá. E ficam os dois, num braço de ferro, a ver quem adormece primeiro, pela sala, para que não tenham de se olhar ou dizer “ boa noite”. Ou “até amanhã”.

O que eu não entendo, mesmo, é porque é que este jogo do tipo “toca e foge” se possa prolongar por mais que algumas horas. E não aceito que, no entretanto, a mãe ande entre o pai e o filho como mediadora de birras, com cada um deles a dar a entender que jamais será o primeiro a ceder. E não entendo, sobretudo, que os pais e os filhos deixem de se falar e assim permaneçam uma semana, vários meses ou alguns anos, até. Que um filho, de preferência adolescente, não fale com o pai, talvez se compreenda. Que o faça por uma parte do dia, vá. Que os pais lho permitam já se torna bizarro. Mas que um dos pais o incentive acaba por roçar o absurdo. Como pode um exercício desses, de violência silenciosa, ser aceite ou tolerado? Como pode magoar-se, de forma permanente, quem se ama e, mesmo assim, imaginar que nada se estraga, que nada se quebra e que tudo se conserta?

Não! Entre os pais e os filhos são proibidas birras e proibidos amuos! Para mais, de forma permanente. Mas é assim tão pouco razoável que um dos pais pegue num adolescente pelos “colarinhos”, peça desculpa quando deve, fale por ele sempre que consiga e determine um fim para aquilo que não devia nem sequer ter começado? Mas é tão estranho assim que, sempre que se sinta magoado por um filho, um pai reaja e o castigue e, com a dureza de quem se zanga de forma justa, imponha um fim para os maus-tratos da parte daqueles que se amam? Mas é tão pouco razoável que um pai pare e se pergunte se não estará a viver, como vítima, um dilema que ele próprio já terá alimentado, como “entidade amuadora”, com algum dos seus pais, anos atrás? Ou se, ele próprio, ao contrário daquilo que defende, com os exemplos de quem mal fala com os pais, não estará a alimentar a falta de cuidados e de educação que não pode existir entre os pais e os filhos? E, já agora, não é só importante a forma como se cai num clima destes. É, também, muito importante o modo como se sai. Será tão supérfluo que duas pessoas que se amam se desculpem? E não deve um pai dar “o exemplo” e dissipar um clima tão infeliz assim? Será, então, exagerado que se alerte que um clima destes, que não devia durar mais do que duas horas - e que só se alimenta quando os pais, por mais que sejam bondosos, se tornam medricas - nunca se deve dissipar só porque o pai está doente, ou porque está triste ou porque, entretanto, se tornou frágil? Não deve um pai exigir que ele termine, ancorado na sua autoridade bondosa de pai? E que o faça, unicamente, porque amar não se conjuga com desconsiderar, violentar ou humilhar?

Chegados aqui, esclareça-se: é proibido que os pais e os filhos deixem de se falar. É desaconselhado alimentar amuos e birras. É banido para os filhos. E interdito para os pais. Filhos que deixam de falar com os pais magoam, por mais razões que reclamem, unicamente para fazerem de conta que são crescidos. Mas não são filhos! Pais que deixam de falar com os filhos magoam, unicamente, para deixar inequívoco quem é que manda. Mas não são pais! Quem ganha com isso? Os remorsos. O rancor. E a revolta. Nada mais.

 

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