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Deixem os adolescentes em paz!
a vida em estado de sítio: 42

"Instituiu-se" que os adolescentes têm "mau feitio". Que são respondões. Que são "senhores do seu nariz". Que "não ouvem ninguém". Que transformam os amigos numa espécie de “gurus motivacionais”. Que parecem ter um cardápio muito próprio de "manhas e manias". Que vivem presos ao telemóvel e, de certa forma, mais ou menos alheios de quase tudo o que nos preocupa. E que, depois de passarem por uma "fase" em que falam por murmúrios e "grunhidos", "saem do armário" e entram na "idade da parvoeira".
"Institui-se" que os adolescentes vivem "a 10 centímetros" do chão. "De cabeça na lua". E que, na maior partes das vezes, muito "virados sobre o seu umbigo". Mas, durante a quarentena, os adolescentes mostraram que são vítimas de publicidade enganosa. Sem que ninguém a regule. E sem que ninguém salvaguarde o seu "bom nome".
Nestes últimos dois meses, os adolescentes "saíram de circulação” e fecharam-se em casa. Passaram a ter cuidados de higiene como mais ninguém. E a proteger os pais e os avós. E puseram o seu "feitiozinho" de quarentena a bem de um clima familiar que precisava deles. Deixaram a escola e passaram a estar sozinhos no quarto: onde dormem, trabalham, jogam, comunicam, se "socializam", vêem séries e têm aulas. Passaram a ter pacotes de páginas de matéria que não deram para estudar. Trabalhos e mais trabalhos de casa. Aulas à distância. Telescola. Regresso às aulas só das disciplinas a que têm exames. Turmas reorganizadas. Aulas de 3 horas, sem intervalo. E, no final de tudo, têm exames. São seriados por uma nota final que, porque é um número, parece classificá-los com objectividade. E compará-los, de forma justa, uns com os outros.
No entretanto, não tiveram todos as mesmas condições de acesso ao conhecimento. Uns tiveram aulas, outros tiveram os professores desencontrados de si. Uns tiveram avaliações; outros trabalhos de grupo. Uns tiveram os pais a cuidar deles e outros viveram este período numa relativa "auto-gestão".
Será que, depois disto, ainda fará sentido considerar que aos adolescentes falta sensatez? Ou que lhes falta "foco". Ou que parece que nada os "mexe" ou "motiva"?
"Instituiu-se" que os adolescentes são difíceis. Mas tantas dificuldades não teriam todo o direito a terem-nos a vê-los de outra maneira? E não mereceriam mais respeito? Mas, afinal, quem é “muito difícil”: os adolescentes ou a forma como reconhecemos neles muitas qualidades das quais nos desencontrámos?

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