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“Estou-me a cag...”
Será?

A frequência com que os adolescentes dizem “Estou-me a cag...” só tem rival na forma como alguns políticos, em campanha eleitoral, afirmam que repõem salários, corrigem desigualdades sociais e descem os impostos. Ou seja, vai-se a ver, e nada daquilo que se repete corresponde aquilo que parece.

É por isso que sempre que um adolescente afirma “Estou-me a cag...”, acerca de tudo e de nada, se torna imprudente que se suponha que o seu estado de indiferença é voraz e galopante. Vendo bem, talvez exactamente ao contrário, queira dizer mais ou menos assim: “Se eu não me envolver demais naquilo que é importante para mim sempre me poupo a mais outra decepção”. Isto é, quanto mais eles repetem “Estou-me a cag...” mais acabam por falar da forma como adorariam não baixar os braços, por nada deste mundo, seja em relação ao que for, enquanto acumulariam orgulho de vitória em vitoria.

Aliás, se os adolescentes são minuciosos em todas as suas escolhas, e se são, até, "milimétricos" no modelo de sapatilhas que desejam ou na cor da t-shirt que elegem para si; e se são briosos na forma como se arranjam ou se “despenteiam”, demoradamente, com todo o preceito, porque motivo, para tudo o resto, haveriam de ser indiferentes? "Porque, para aquilo que é importante para nós, eles são do contra", dirão alguns pais. Mas não! O “Estou-me a cag...” dos adolescentes é “mau perder”. Manifesta-se, sobretudo, em relação aos resultados escolares; é verdade. Mas não é porque eles os desdenhem! Não! Um desabafo como este só surge depois de não haver mais como atribuir à antipatia de um professor ou à “inutilidade” da geometria ou da geologia, por exemplo, a “constipação” do rendimento escolar. Mesmo que os pais o amenizem com frases como:“Não precisas de ser o melhor”. Ou - pior, ainda - com: “Eu só quero que tenhas positiva...”.

Seja como for, eu “proibia” - mesmo na sua versão de desabafo - o “Estou-me a cag...”. Não que isso sirva para o erradicar. Mas sempre serve para os ir “obrigando” a assumir a verdade. (Mesmo quando o “Estou-me a cag...” acaba por ser, ele também, muito popular entre os adultos em relação a todas as vergonhas que eles já acumularam.) Sobretudo porque, à custa de tanto repetirem: “Estou-me a cag...”, um dia destes acontece como aos slogans na política: uma pessoa repete-os demais e, depois, até parece que são verdade. E não vale a pena. Para isso já chega aquilo que se passa com os tais políticos quando falam da reposição dos salários, da correção das desigualdades sociais e da descida dos impostos. Por mais que, até mesmo em relação a essas coisas, o nosso “Estou-me a cag...” devesse deixar de ser tão enfadonho, tão engonhante e tão passivo como é.

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