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Gosto dos adolescentes que nunca entram nos livros com o pé direito
a vida em estado de sítio: 46

Gosto dos adolescentes que se passeiam nos livros. Daqueles que entram nas histórias e que se perdem de si. E daqueles que os viram de "pernas para o ar". Dos que contam um conto e se acrescentam num ponto. E daqueles que brincam com as palavras. Como se fossem torres de cubos que montam e desmontam. E fazem com isso uma forma de desentaramelar o coração.
Gosto dos adolescentes que começam por gostar dos livros mal os cheiram. Daqueles que saltam as páginas. E que vão e que voltam. E que saltitam até às "soluções". E que, depois de o apreciarem, de longe, quase a medo, regressam e o folheiam, tremelicando, com o nervoso miudinho de quem, em cada página, encontra, com espanto, vários primeiros dias de escola. 
Gosto dos adolescentes que nunca entram nos livros com o pé direito. Gostam dos que entram de rompante! Quase a correr. E dos que os tratam por tu. Daqueles que percebem que aprender rima com descobrir entrelinhas e meias-palavras. E respirar de alívio. Quando se descobre que os livros são preciosos quando permanecem, aos bocadinhos, por escrever. Depois de escritos. 
Gosto dos adolescentes. Porque eles lêem! Lêem o mundo e as pessoas. Lêem sentimentos e lêem gestos. Lêem silêncios. Lêem páginas em branco. E é por lerem tudo aquilo que vai de dentro de si até ao fim do universo que, quando entram num livro, saem, logo a seguir. Sem nunca mais o fecharem. Porque ele, fazendo de despercebido, passou a ser da família de quem o lê. É quando os livros que lemos tagarelam (uns sobre a voz dos outros) dentro de nós, que, sem darmos conta, estamos prontos para os ler. De novo. Pela primeira vez. 

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