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Jovens "cabine telefónica"
"Não sei bem se isto é o que quero estudar... e não sei bem o que quero fazer"

Convivo, cada vez mais, com jovens adultos (regra geral, estudantes universitários) que, aos olhos dos pais, são descritos como "desmotivados". Têm maus resultados escolares. Muito frequentemente, repetem alguns anos dos seus cursos. A certa altura, ficam "agarrados" aos jogos de computador, ao poker e às apostas desportivas. Isolam-se. Fogem de ir às aulas. E entram numa espiral de apatia que, de início, irrita e enfurece os pais. A seguir, que os leva a condescender com comportamentos que, em condições normais, não aceitariam. E que, finalmente, os alarma e faz com que se sintam impotentes. Muitos destes jovens adultos, quando descrevem o dilema em que vivem, falam, sobretudo, da forma como sempre desejaram ser “diferentes”. Ter sucesso (muito sucesso!). Ganhar bastante dinheiro, claro. E não reproduzir, em quase nada, os empregos "das 9 às 5" dos seus pais. E, acima de tudo, terem vidas melhores que as deles.

Na maioria das circunstâncias, o melhor que estes jovens conseguem dizer acerca de si próprios, é que não têm "a certeza" de gostar daquilo que estão a estudar. E que não sabem o que querem vir a fazer.

Em primeiro lugar, acho que mais facilmente deixamos que os nossos filhos ponham aquilo que querem vir a fazer antes de quem querem ser. Como se aquilo que são dependesse mais do que fazem. Quando deviam preocupar-se em conhecer-se - "saber" quem são - para que, depois, descubram o que hão-se fazer com isso e de que forma aquilo que venham a fazer tenha "a sua cara".
Em segundo lugar, a aspiração de "ser diferente" só acontece quando os nossos filhos se sentem "demasiado iguais" a todos os outros. Tão iguais que "ser diferente" se consuma mais pela grandiosidade das suas conquistas profissionais, em relação aos outros, que pela singularidade do que são e do que fazem com isso.
Em terceiro lugar, compreende-se que não queiram um emprego "das 9 às 5". Como se descrevessem a vida dos adultos mais velhos (e a dos pais, em particular) como monótona, entediante, muito pouco apaixonante e triste. Sem o retorno de liberdade a que eles aspiram.
Em quarto lugar, estes jovens adultos acabam por dizer, por outras palavras: “Aquilo que eu sei é que, em muitos aspectos, não quero ser igual aos meus pais”. E isso seria, até, bom. Sobretudo se, a seguir, eles ousassem, com humildade e ser melhores.
Em quinto lugar, crescem numa atmosfera escolar em que eles parecem ter todos de ser "bons". Grande parte, têm mais "pó de arroz" nas notas do que deviam. Têm equipas de explicadores a trabalhar para eles (contribuindo para que as suas notas não correspondam ao valor real que, num determinado momento, representam). Têm níveis de vida muito acima daqueles que um estágio profissional lhes virá a dar. E têm os pais a repetir que: "Não me importa aquilo que ele venha a escolher. Só exijo que seja bom naquilo que faça". Isto é, parece que todos se preocupam que eles "tenham de ter" sucesso muito antes de descobrirem como conquistá-lo.

Como é que, a seguir, um jovem adulto assustado - que, todavia, se imaginava muito melhor do que, entretanto, descobriu que seria - consegue sair desta "cabine telefónica" em que se sente fechado? Não consegue. Se a porta de saída passa pela grandiosidade das suas conquistas.

A verdade é que nós, os pais, não os ajudamos a conviver com dificuldades e com frustrações. Não os ajudamos a ser autónomos e guerreiros. Protegemo-los demais das suas inseguranças e não medimos o quanto isso os fragiliza. E contribuímos para o equívoco de lhes dar a entender que são muito melhores do que, efectivamente, são. O que é que eles ganham com isso? Nada. A não ser o medo de nunca conseguirem vir a ser aquilo que nem sequer ousaram, verdadeiramente, sonhar e desejar.

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