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Movimento dos indignados
Caderno reivindicativo dos pais dos adolescentes

Nós, os abaixo associados, declaramos – solenemente – iniciar um Movimento de Indignados constituído por pais de adolescentes. A favor da recessão! E contra essa ideia deles serem um mercado apetitoso e em expansão, que desconhece a crise e que faz com que – desde os operadores de telemóveis, às marcas de vestuário, de ténis e de calçado – todos os seduzam com novas tendências e novos produtos que confiscam a nossa engenharia financeira e fazem dos nossos dias um território à margem do sossego.

E somos a favor duma revisão em baixa dos acessos de demagogia dos nossos filhos. Daqueles que fazem com que, fatalmente, nos sintamos os pais mais conservadores, mais musculados e mais “caretas” do universo, sempre que eles, com um requinte de cirurgião, colocam, delicadamente, na conversa as horas de entrada em casa de “muitos colegas”, o “coração mãos-largas” doutros pais e, até, a autogestão exemplar de alguns amigos.

E não querendo nada que eles se tornem atilados, reivindicamos um alargamento dos prazos de paciência para com os atrasos que todos os pais deviam ver reconhecidos pelas respectivas entidades patronais. Porque somos nós que os temos de acordar, devagarinho, sob pena dos nossos anjinhos parecerem, todos os dias, uma versão melhorada do Rezingão. E somos nós quem tem que contar até 200 de cada vez que eles aparecem com outra roupa, a perguntar se fica bem, enquanto o quarto parece engolido pelo cone dum furacão. E somos nós que ficamos de nervos arrasados porque, ao mesmo tempo que quase nos beliscamos para não buzinarmos, eles se despenteiam, com requinte e com gel, antes de descerem para o carro. E somos nós que os ouvimos a repreender o mundo porque têm um teste às oito e meia – e “já é tarde!!!!” – e não nos é permitido enfurecer, porque há sempre um “já me estás a por nervoso!” que pode justificar mais uma nuvem de patetice quando se trata de atacar as primeiras perguntas.

E achando muito bem que todos tenham telefone, até porque isso nos permite fazer de "tele-pais", reclamamos a favor de muitas moções de censura contra os pacotes de mensagens grátis para todas as redes! E das 1001 apps com que comunicam. Estamos fartos de não nos podermos distrair, nem ao jantar, sob pena de, de dois em dois segundos, aparecerem mais e mais mensagens. E já não suportamos que eles adormeçam, viajem, estudem, comam, vão à casa de banho e falem a trocar mensagens. Porque achamos que deve ser por causa delas que – connosco - poupam nas palavras e emitem uns sons indecifráveis que, numa linguagem muito própria, nos leva a desconfiar que nos estão a mandar para lá de longe.

Declaramos, mais, que – não tendo, como pais, nada contra a actividade física (a ponto de nos incomodar que os nossos filhos tenham no sofá da sala o local que mais canseira lhes provoca), – nos incomoda esta necessidade de ginásio que os tomou a todos. Por acaso não têm eles ruas, parques e jardins onde possam correr com o vento a refrescá-los? E não há fantásticos circuitos de manutenção daqueles que, antes de nos resignarmos à preguiça, nós fazíamos?

E, embora ninguém os queira rufias em relação ao próprio corpo, manifestamos a nossa oposição para com o modo muito exclusivo como eles lidam com a balança. É balança de manhã e antes do banho. Balança quer quando poupam nas batatas e se desforram nas bolachas, quer quando se opõem à dieta mediterrânea, e se declaram amigos das saladas, enquanto não resistem a pizzas e hambúrgueres. Quer quando juram não ter acabado com todo o pão lá de casa ao mesmo tempo que os temos de ouvir a rezingar contra a sopa e o jantar.

Nós, os pais indignados, somos a favor da internet, claro, mas não achamos justo não sabermos se o computador está a servir de lápis mais caro, de enciclopédia vibrante ou se favorece, com um ar cândido, o lado mais diletante que eles têm, polvilhado de alguma coscuvilhice (que, dantes, tínhamos quando púnhamos um livro aos quadradinhos dentro do compêndio da matemática).

E reconhecemos que a televisão não precisa de ter programas cheios de tunning para os neurónios dos nossos filhos. E somos tão arejados e (só para que saibam!) que aceitamos que os nossos meninos não tenham que ver só o canal “História” ou o “National Geographic”. Mas tantos programas em que se come minhocas ou se perde a conta à sensatez humana, já chega. E programas de wrestling é demais. E mais realitys shows, desculpem, ninguém aguenta!

E não admitimos este tom de “que se lixe o fim-de-semana”, ao sábado e ao domingo de manhã, que eles desenvolvem, que (por mais que nos leve a descobrir, outra vez, que o silêncio é um património da Humanidade) nos estraga os nossos programas. E não toleramos os trabalhos de grupo, ao fim-de-semana. E as festas de aniversário, ao fim-de-semana, em que somos nós que pagamos o jantar, o cinema e o convívio, que se segue. E dá-nos um formigueiro na fúria isso de estarmos a cambalear até às duas da manhã de domingo, para os irmos buscar a casa dum amigo (e ainda acabarmos a fazer de autocarro escolar distribuindo meninos pelas casas dos pais espertalhões). E já chega de programas desportivos ao sábado! E de birras e mau feitio de fim de semana... que nos fazem suspirar pela segunda-feira num clima de “isso é que era!” que, dantes, tínhamos à quinta, quando fantasiávamos os dias que estavam para chegar.

Nós, os abaixo associados, declaramos solenemente iniciar um Movimento de Indignados constituído por pais de adolescentes. A favor de filhos menos arrufados e mais ternurentos. Mais amigos das palavras connosco e mais mimentos. Que acarinhem a nossa indignação! E que, sem ser preciso pedir, nos tratem por paizão e mãezona, todos os dias, com um sorriso e com alma, e não só quando nos tentam seduzir, para que, depois de os contrariarmos, se indignarem logo a seguir.

 

 

*Texto em repositório com edição especial para a sua versão digital

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