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O egoísmo dos adolescentes é próprio da idade?
Receio que não

Acho que não conheço pais de adolescentes que não se queixem, de vez em quando, da forma como eles parecem "frios" e egoístas. Porque se sentem quase desmoralizados de cada vez que "convocam" o adolescente lá de casa para um qualquer compromisso da família. Porque nada, para eles, parece vir na altura certa. E que, por isso, não deixe de merecer reparos, protestos e, até, alguns apontamentos semelhantes a pequenos tornados de "mau génio". E também não conheço pais que, pelo menos uma vez, não me falem da forma como têm que "morder a língua" para não embirrarem com a relação doentia que os seus filhos adolescentes têm com o telemóvel (que mais parece um prolongamento do seu corpo ou uma jóia preciosa tratada com uma espécie de carinho que eles nunca dedicam aos próprios pais).

E acho, também, que não conheço pais de adolescentes que não protestem com a forma como os filhos "nunca" pedem desculpa. Ou como parecem, até, incapazes de reconhecer a sua culpa. Seja a propósito do que quer seja. Uma briga de irmãos, onde eles usam e abusam, cheios de razão, do "Foi ele que começou!". Ou de um resultado escolar que se "constipou", cuja culpa será, irrevogavelmente, do professor. Que "embirrou" com eles.

E acho, ainda, que não conheço pais de adolescentes que não se queixem da forma como os filhos são mais "cuidadosos" com os amigos do que, propriamente, com os pais. Ou do jeito com que eles deixaram de ser “queridos” ou de dizer "amo-te", como quando eram pequeninos. Ou como reagem com enfado, maus-modos e "respostas tortas" sempre que os pais lhe pedem (!) só um abraço.

Finalmente, acho que conheço muitos pais de adolescentes desolados com o modo como os filhos - depois do imenso tempo que dedicavam a fazer um desenho para os seus aniversários e, a seguir a isso, juntarem (vibrantes) dinheiro para lhes comprarem um presente - se "esquecem" dos "anos". Como se nada, para eles, fosse mais importante que o seu "umbigo".

"Será o egocentrismo 'doentio' uma característica 'própria' da adolescência?”, perguntava-me, num dia destes, um pai? E a resposta é... não!

Em primeiro lugar, filhos amados são filhos egocêntricos. Sentem-se, por causa da importância que sempre lhes demos, um bocadinho "donos do mundo".
Em segundo lugar, a forma como eles parecem pôr, em tudo e em mais alguma coisa, os seus interesses à frente das atenções, dos cuidados ou das palavras que dedicam aos pais só é possível porque nós vamos "na onda" e fechamos os olhos aos "tiques de primeira figura" que eles conquistaram. Que, quando eles são pequeninos, nos deixam enternecidos. Depois, mais tarde, nos arrancam lamúrias. E, a seguir, nos levam quase a pedir desculpa por sermos "Os pais!". "É para não estar aos berros o tempo todo...", justificam-se os pais.
Em terceiro lugar, o facto deles estarem entaramelados com o próprio corpo, sentirem a cabeça às voltas como se ela fosse um carrossel, ou guardarem para os pais o melhor do "mau feitio" que poupam aos outros, são “desculpas de pais”. Tal, aliás, como a “idade parva” em que eles vivem. É verdade que eles oscilam entre o "ouriçado" e o "enxofrado". Mas o egocentrismo dos adolescentes só se torna naquilo que é porque há um certo “encolhidismo” de pais que devia ser proibido. Para o bem de todos
Depois, egocentrismo não é "auto-estima". Nem é segurança. É uma forma de um adolescente, junto dos pais, “armar-se” um bocadinho em “herói” enquanto que, com os colegas, "pia fininho".
Finalmente, o "egocentrismo" dos adolescentes é muito o resultado da forma como se acumularam todas as gracinhas dos filhos e os pequenos desabafos do género: "Não é por ser meu filho, mas ele é muito inteligente”. Mais os episódios de "personalidade muito forte" que, afinal, não seriam mais do que acessos avantajados de "má educação". Mais os sorrisos arrebatados de amor de mãe e de amor de pai. Que, tudo junto, se transforma em egocentrismo "doentio". Mas, resumindo: não, o "egocentrismo doentio" dos adolescentes não é "normal". Não, ele não se deve desvalorizar como se fosse uma parvoíce da idade que, mais tarde ou mais cedo, passa por si. Não, ele não se deve reprimir, só de vez quando. E não, não deve merecer "só" que se barafuste. Porque se do egoísmo "doentio" não se retirarem consequências claras, barafustar sem que se apliquem "coimas", a seguir, mais parece uma implicância nossa que uma reacção legítima de dor que esse egoísmo só merece.
Logo, o egocentrismo não é nem um "defeito de fabrico" nem um artefacto próprio da adolescência. Precisa de ser educado. Todos os dias! Porque se, egoísmo à parte, os nossos filhos adolescentes já são o que são, soltos disso que nos magoa aí, sim, "não é por serem nossos filhos", eles ficam mais bonitos.

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