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O futuro, os adolescentes e os pais
É inquietante a forma como, em nome do futuro, os adolescentes podem estar a ser muito mal preparados para ele

Há alguma coisa que me preocupe a propósito dos adolescentes? Sim! A forma como parecem não acreditar “perdidamente” no futuro. O modo como parecem não o ver como uma clareira onde os seus sonhos ganham vida e forma. E tracção, até. E como o imaginam, no essencial, como o “paraíso fiscal” para as facilidades. E parecem imaginar-se a ser nele, sobretudo, “muito grandes”, famosos e, financeiramente, poderosos. Porquê? Talvez porque sonhem por si e pelos seus pais, ao mesmo tempo. Talvez porque os pais pareçam viver demasiado sequestrados no presente e acreditar pouco - mesmo muito pouco - no futuro como um lugar melhor, mais humano e mais justo.

Mas, num primeiro olhar, a minha preocupação pode parecer quase estranha. Sobretudo porque, aos olhos dos pais, os adolescentes já vivem demasiado no futuro, considerando aquilo que os pais lhes podem dar. Digamos que, compreensivelmente, o fantasiam. Mas não estimam muitas das consequências que ele lhes pode trazer. Nem o pensam como só os pais o conseguem fazer.

Por outro lado, pensando na relação que pais e escolas estabelecem com eles, é inquietante a forma como, em nome do futuro, os adolescentes podem estar a ser muito mal preparados para ele. Quer na forma como os estamos a obrigar a crescer sossegadinhos e calados. E lhes damos cargas absurdas de trabalho, de rankings e de metas. E parecemos fazer por esquecer que a adolescência com juros de mora, fora de tempo, os torna tristes, azedos e agrestes. Quer no modo como nos resignamos a que falem por silêncios, por murmúrios e por esgares. Ou em 140 caracteres (agora, já em versão 280)! E não damos à palavra a função de amiga da saúde que ela terá.

Ao mesmo tempo, vivemos a sua relação com as novas tecnologias ora como se fôssemos todos um bocadinho infoexcluídos, ora como se lhas facilitássemos, em nome do progresso, sem medirmos todas as consequências que elas lhes podem trazer. Comecemos pelo mais simples; o número de mensagens escritas (valor médio) que os adolescentes enviam todos os dias: 75 SMS por dia; 27 000 a 28 000 por ano. Não contando com as aplicações online. Nem com os 30 minutos diários que falam ao telefone (o que corresponderá a mais ou menos 8 dias por ano a falar). Ou com o facto de ¼ deles passar mais de 6 horas por dia online, sendo que 90% dos adolescentes dispõe de dados nos telemóveis o que lhes assegura uma ligação permanente à internet. Só isso já nos deveria merecer uma profunda reflexão. Mas vivemos num mundo em que pais e filhos tocam, arrastam ou clicam no telemóvel 2 617 vezes por dia. E, mesmo desligado, o telefone interfere com o nível de atenção gerando uma “atenção parcial contínua” que inquina o discernimento, o pensamento e as capacidades de escolha. E limita, de forma voluntária, a inteligência. Para além de se circular por conteúdos sem classificação etária. E, sobretudo, sem qualquer controle por parte dos pais.

Não se trata, hoje, de tomar o mundo dos nossos filhos adolescentes, amanhã, como pior que o nosso. Trata-se, isso sim, de estimar os perigos que podem estar a viver, “a esta hora”, com o nosso patrocínio. E de começarmos, já hoje, a não permitir que as novas tecnologias interfiram nas refeições e nos momentos da família, nos espectáculos que só devíamos sentir (sem o impulso constante de registar), e em todas as ocasiões em que possam estar a contribuir para nos tornarmos mais estranhos, uns em relação aos outros e em relação a nós própios. E trata-se de pararmos com o deslumbramento de falar deles como se a escola com smartphones, tablets e afins fosse melhor. Não é! Aliás, tenho sérias dúvidas que devam ser permitidos na escola! Doutra forma, os recreios dos adolescentes, que já são um bem “em vias de extinção”, correm o risco de se transformar numa multidão silenciosa vergada sobre um telemóvel. Temos a obrigação de perceber que os pais passam a ter sobre si a exigência de compreender que - ao mesmo tempo que se evocam os tempos em que os seus filhos crescem como amigos da informação, da educação, da cultura e do conhecimento - não controlam, de todo, os conteúdos digitais a que os filhos acedem, as formas subliminares como são instrumentalizados nas suas escolhas e as redes sociais por onde “navegam” e que os persuadem. De tal forma é assim que pesa sobre os pais - desde hoje, mesmo - a necessidade de chamarem a si a relação dos filhos com as novas tecnologias. Intervindo, orientando e – no limite – regulando-a sempre que sintam que essa relação se torna ora opaca ora obscura. Ou quando, intuitivamente, os considerem no limiar do perigo de qualquer “adição digital”. Até porque sem esta intervenção consciente e determinada dos pais, a democracia representativa poderá soçobrar, vezes demais, diante do populismo, da manipulação, do voyeurismo, da vulnerabilidade e dos efeitos perversos que todos sabemos serem possíveis nas redes sociais. Se por um lado se cresce com o mundo ao alcance de um clique, por outro parece estar-se no mundo sempre atrás de um qualquer ecrã. Se por um lado se cresce com o mundo na ponta dos dedos, por outro corremos o risco de crescer a achar que o mundo está sempre longe demais! E, a maior parte das vezes, a vida não tem filtros, não aguarda pelo momento ideal nem se compadece por a "rede" estar em baixo...

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