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O sexo está fora de moda?
Estarão as gerações mais novas a passar por uma "recessão sexual"?

O jornal Expresso, do último fim de semana, trazia um artigo sobre a relação dos adolescentes com a sexualidade que me preocupou. A propósito daquilo que algumas revistas já chamaram "recessão sexual" reproduzia-se uma afirmação em que se dizia que: "No espaço de uma geração, o sexo passou de algo que a maioria dos estudantes do secundário já experienciou para algo que ainda não fez", chamando-se a atenção do modo como "pessoas nos vintes são duas vezes mais propícias à abstinência do que a Geração X [anterior a esta] na mesma idade". Perguntando-se, de forma enfática, se não poderíamos estar a chegar "à era do fim do sexo". A par, referia-se que, em 2002, quase 24% dos adolescentes portugueses relatava ter perdido a virgindade até ao 10º ano e que, em 2018, o número caiu para 16,2%. Tudo por culpa da relação que os adolescentes teriam com o digital e com as redes sociais.

1. Era importante que não confundíssemos as pessoas de 14 com as pessoas "nos vintes". E que não baralhássemos uns e outros com os casais "assexuais" (que lá se abordam).
2. É indispensável que, depois de perspectivas alarmistas acerca da sexualidade dos adolescentes - como aquelas que se observavam não há muito tempo, e que levaram a que se chegasse a propor o sexo oral como estratégia contra o risco de gravidez na adolescência (lembram-se?) - não se interpretem estes resultados, relativos aos adolescentes, como a consequência da sociedade digital e das redes sociais mas, mais, como o resultado duma geração de adolescentes que parece ser mais informada e menos impulsiva do que outras gerações, antes dela. Ou seja, mais informação sobre sexualidade poderá significar menos impulsividade e melhores escolhas. Mas isso parece ser entendido - mal! - como... "recessão sexual".
3. Este alarme em redor da ausência de experiências sexuais precoces (estamos a falar de adolescentes de 14/15 anos!) pode entender-se como um sinal de que os adolescentes se afastaram da sexualidade ou, antes, deve-se à estranheza que a geração dos seus pais parece ter perante o facto dos filhos não terem práticas sexuais iguais às suas, quando tinham a idade deles?
4. Os adolescentes cresceram muito mais expostos a conteúdos sexuais de "consumo livre". Na publicidade, nas séries ou na televisão generalista. E têm um acesso muito facilitado a esses conteúdos na internet e nas redes sociais. Mais exposição à sexualidade pode significar melhor capacidade para distinguir o "fazer sexo", num furor entre a ânsia e a exaltação, do "viver a sexualidade", no contexto duma relação amorosa.
5. Os adolescentes, hoje, pensam mais e agem menos. Não passam ao acto duma forma irreflectida como se supõe. Em muitos casos, são mais sensatos. Logo, a forma como convivem com os seus sentimentos e os enquadram naquilo a que aspiram é menos rudimentar do que acontecia na adolescência dos seus pais. O que leva a que uma vida afectiva mais esclarecida e uma sexualidade alavancada pelo impulso casem pior.
6. Vivemos num mundo onde a sexualidade deixou de ser um conteúdo interdito. Que não se branqueia na família. E que se conversa na escola. Daí, é provável que, ao perder a sua qualidade de tabu, a sexualidade tenha ganho um "direito de cidadania" que lhe tenha feito com que não é por se passar mais depressa das fantasias sexuais à vida sexual que se cresça melhor.

Por outro lado, é verdade que a exposição precoce a conteúdos sexuais pode fazer com que a sexualidade se associe a experiências interpretadas, à escala da idade com que eles são "consumidos", como violentas, que contribuam para a esvaziar de élan e a desloquem, mais tarde, para o contexto, mais exclusivo, duma relação amorosa. E é, igualmente, verdade que os adolescentes crescem muito "dominados" por uma idealização de si próprios - alimentada por nós! - que leva a que, mesmo em relação às experiências amorosas, eles as vivam numa expectativa premium, que os torna muito mais fóbicos em relação a se experimentarem em áreas onde não sejam "perfeitos". E que estes dois aspectos podem enviesar a forma como se vai da descoberta da sexualidade à forma como ela é vivida.

E é, também, verdade que os adolescentes do secundário vivem esgotados. Sob um stress absurdo que os leva a viver, vezes demais, "no limite" do colapso. E não têm nem espaço nem tempo para namorar. E é verdade que não os educamos para a palavra, sem a qual as experiências amorosas se "constipam". E que os pais dos adolescentes não são, na maior parte das vezes, referências inequívocas de quem tem com o amor a melhor das relações. Mas falarmos de "recessão sexual" quando, há uma geração, prevalecia a "inflação sexual" parece-me "escorregadio". E, já agora, erotizar e sexualizar a vida são coisas diferentes. Erotizá-la faz com que se viva a sexualidade com liberdade. Sexualizá-la faz com que se procure na sexualidade tudo o mais que a vida não dá. Quando se fala de "recessão" isso pode fazer a diferença.

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