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Os cortes na adolescência
Quando a dor física é "a solução"

Porque é que os adolescentes se cortam, tantas vezes? E porque é que parecemos ir lidando com isso com uma certa “naturalidade”? Talvez sejam essas, em resumo, as duas questões que nos deviam interpelar em relação àquilo que se vai passando, actualmente, com uma frequência um bocadinho inquietante, sobretudo entre os 12 e os 15/16 anos.

Tornou-se muito frequente ouvirmos pais de adolescentes referirem-se, com algum alarme, aos cortes que os seus filhos fazem nos seus braços (com um x-ato ou com uma lâmina de barbear, por exemplo). Os cortes nos braços serão a forma mais frequente a que alguns adolescentes recorrem (muitas vezes, logo a partir dos 12) para manifestarem algum mal-estar. Em muitas ocasiões, como se isso se tivesse tornado quase um ritual de iniciação. Nessas alturas, fazem-no, aparentemente, por “motivo nenhum” que não seja porque os outros o fazem, também. Por vezes, numa reacção orquestrada de grupo, de forma a apelarem a que um determinado ídolo para que adopte um comportamento de saúde (como, por exemplo, deixar de fumar). Mas quanto mais um comportamento destes é reservado, clandestino ou íntimo, e deixa de ser mobilizado por um grupo, aquilo que ele representa ganha um formato mais preocupante. Ou seja, um corte superficial nas costas da mão será, ainda assim, menos alarmante que um corte (mais profundo) na face interior do braço, na planta do pé, na virilha ou na axila. Sendo certo, que um corte na mão nunca é só uma “chamada de atenção”. Será, nas situações menos alarmantes, um ritual de pertença a um grupo, um “amuleto” ou a marca da assumpção de uma causa. Já outros tipos de cortes serão, nos casos mais graves, a “ponta de um icebergue” de um sofrimento que requer uma atenção muito dedicada.

Por vezes, antes desses cortes declarados, observa-se, um “patamar intermediário” de comportamentos preocupantes que parecem aproximar-se deste tipo de manifestações que recorrem a alguma dor física. De início, quando as crianças, no primeiro ciclo, tentam sossegar alguma tensão arrancando “peles”, dos dedos, até “fazerem sangue”. Depois, quando se arranham, provocam feridas e arrancam crostas, num registo que se repete e se repete.

A questão que se coloca, sobretudo diante de comportamentos como estes, quando eles se tornam repetitivos, é: em primeiro lugar, porque é que se dão? Em segundo lugar, porque é que se tornam muito mais frequentes na adolescência? E, finalmente, porque é que são mais “vulgares” no feminino do que no masculino? Considerando estas auto-mutilações mais repetitivas e mais “clandestinas”, este movimento tão depressa pode ser desencadeado por uma atitude que procura, deliberadamente, a experiência de dor como forma de aplacar o sofrimento, como, em circunstâncias de conflito, é o resultado de um movimento impulsivo que faz com que se reaja “para dentro” (contendo a fúria ou contornando a agitação ou o medo) em vez de se assumir um comportamento de insolência, de desafio ou, mesmo, uma atitude agressiva contra “terceiros”. Seja como for, numa e noutra circunstâncias, a dor física circunscrita e mais ou menos aguda (e o sangue) funcionam como a indução duma experiência que pretende absorver a angústia, o sofrimento ou a “dor emocional” que, em determinados momentos, se sente. Quanto maior a “dor emocional” mais a dor física “escala” para que sirva de “mata borrão” em relação ao sofrimento.

Em segundo lugar, não será por acaso que, das situações mais “ritualizáveis” (próprias de um certo sentimento de tribo) aos casos mais graves, que a puberdade e a adolescência sejam os “territórios” onde tudo isto se dá com maior frequência. Porque com ela o corpo sofre safanões tremendos. Porque o grupo (sobretudo o das adolescentes) reage de forma muito ríspida, agressiva e estigmatizante às diferenças que alguns dos seus membros manifestam. Porque a cabeça se “vira” num reboliço e isso se torna digno de uma “montanha russa” de emoções. Porque os mimetismos de grupo “florescem” com a adolescência. Porque, sobretudo, os adolescentes são muito pouco educados para a palavra, e isso os torna “panelas de pressão”, amiúde. Logo, quanto mais sofrimento e quanto menos palavras mais actos. E quanto menos actos “para fora” mais “actos para dentro”.

Finalmente, porquê as raparigas? Porque a forma como traduzem menos em “actos para fora” o seu mal-estar as distingue dos rapazes destas idades. Porque o corpo, nestas alturas, é muito mais investido por elas. E, quando a turbulência vai alta, o utilizam como uma fala privilegiada de a manifestarem, o que substitui outro tipo de comportamentos de risco, por exemplo. Por outras palavras, atacarem o corpo em que tanto investem é uma forma de manifestarem o sofrimento pelo qual elas se sentem “atacadas” por ele, por exemplo.

Finalmente, como devem os pais reagir diante de um corte? Com um alarme compreensivo, claro. Mas duma forma pouco precipitada. Primeiro, é importante que se perceba que relação tem “aquele” corte com “aquele” momento da vida dum adolescente e com “aquela” personalidade. Por outras palavras, que se ponham “legendas” naquilo que ele representa. Até porque a distância que separa um “comportamento de tribo” de um corte como um equivalente ansiolítico ou anti-depressivo, por exemplo, é muito grande. Depois, que não adoptem nem uma atitude demasiado dialogante e pouco interditiva perante um comportamento tão preocupante. Mas que não relativizem tudo isso atribuindo-lhe uma normalidade que esses comportamentos não têm. Os cortes, na adolescência, não valem por si só. São sinais que precisam de ser percebidos como um todo, com rigor. Sob pena de esconderem uma personalidade que vai ficando adoentada e vai manifestando essa dor de formas enviesadas. Até não poder mais.

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