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Os smartphonianos
Uma sub-categoria dentro da espécie humana que parece ter desenvolvido uma mutação

Os smartphonianos são uma sub-categoria dentro da espécie humana, regra geral, entre os 12 e os 18 anos, que, por mais que mantenham, em aparência, uma semelhança física connosco, parecem ter desenvolvido uma mutação significativa em relação a nós. Sobretudo se considerarmos a forma como o smartphone parece ter-se transformado num prolongamento quase natural do seu corpo, ao ponto de, sempre que são privados dele, muito rapidamente parecem entrar num colapso quase imediato, acompanhado duma espécie de dança ritual em que repetem, muitas vezes: “Eu não aguento!”, com a qual transmitem o síndrome de privação que toma conta deles quando são ameaçados ou privados do smartphone. Alguns deles, desenvolvem, mesmo, uma fobia estranha que se traduz por pavor quase irracional de ficarem sem o smartphone, que os faz viver num alerta quase permanente perante o medo de o perderem E outros, aparentemente livres dos vícios mais tradicionais - como o álcool e as drogas - vivem numa espécie de toxicodependência digital que os torna “agarrados” às redes sociais, a todas as horas do dia e em todos os lugares. Outros, ainda, vivem este prolongamento do seu corpo como uma slot machine com a qual acentuam este vício, enquanto alimentam a ideia que os acompanha de fazer das suas vidas um casino. Seja como for, os smartphonianos parecem estarem a disseminar na espécie humana uma linhagem de vírus que está a transformar esta sub-espécie da natureza humana numa geração de distraídos. 

Curiosamente, ao mesmo tempo que este surto epidémico se dá, os pais dos smartphonianos vivem entre  protestos pelo facto deles se terem tornado dependentes dos telemóveis (até durante as refeições familiares) e uma espécie de greve de zelo às regras porque, reconhecem, os smartphones tornam os nativos desta sub-espécie da natureza humana muito mais sossegados. Mesmo que, muitas vezes, estejam entretidos a admirar alguns Youtubers que de tão preocupados com o número de seguidores, por vezes, parecem não exercitar muito a inteligência humana (por mais que os deixem bem dispostos) e que fazem dos seus testemunhos um circo que, mal por mal, sempre se traz no bolso.

Enquanto tudo isto acontece, os smartphonianos parecem estar a tornar-se, também, levemente esotéricos porque, por mais que o smartphone seja um... telefone, eles o utilizam cada vez menos para falar ao telefone ou, mesmo, para trocarem mensagens, preferindo “pacotes de dados” com os quais eles próprios se transformam em... dados. Por outro lado, por mais que os ditos telefones sejam “smart” tudo o indica que, pela forma como são manipulados por programas que acedem aos seus dados, os smartphonianos estejam a deixar de ser tão inteligentes, como os seus antepassados que utilizavam o telefone para falar e para matarem as saudades e a palavra para conversar. Aliás, a relação dos smartphonianos com as palavras parece estar a transformá-las em abreviaturas, como se nas mensagens que trocam, e apesar da sua aparente passividade, parecessem estar mais tensos do que parecem e não ter tempo a perder. Mesmo quando se trata de escrever  “bjs” e “abs” (isto é, beijos e abraços, claro). Seja como for, à conta das abreviaturas, o “porquê”, que foi aproximando os antepassados dos smartphonianos da sabedoria, ocupa, agora, menos espaço (pk), e o X e o K parecem estar a passar por um processo de reabilitação para a língua portuguesa. Tudo o resto que eles não dizem vai assumindo a forma de símbolos e de emojis

Por outro lado, se bem que os smartphonianos pareçam estar-se a tornar mais aptos para o uso do polegar, há quem os caracterize como “a geração da cabeça baixa”, já que, para além de estarem quase três horas por dia a olhar para o telefone, a cabeça debruçada a 60° (que pode pesar até 27 quilos) fará com que, com o tempo, eles passem a ter lesões cervicais, o que pode fazer com que o acto de levantar a cabeça passe a ser acompanhado de dor.

Finalmente, e embora os pedidos de amizade sejam vulgares para os smartphonianos, a forma como eles se estão a socializar torna-se inquietante. Até porque os olhos pregados no telefone faz do smartphone um refúgio mais do que uma janela, com o qual os smartphonianos evitam o diálogo e se isolam, em presença dos outros. E, ironia das ironias, por mais que pareçam a geração mais “in” os smartphones parecem a estar a deixá-los mais silenciosos e mais “out”. 

Seja como for, talvez quem mais pareça ser enigmático que os próprios smartphonianos sejam os seus antepassados. Porque, à conta de evitarem as suas privações e as suas fúrias, sempre que eles se sentem privados do telefone ou à beira de ficarem sem ele, vão contribuindo para que esta sub-categoria dentro da espécie humana vá dando lugar a um conjunto de transformações que se pode virar contra ela. Serão, então, os smartphonianos quem mais põe em perigo a espécie humana? Ou os seus pais, a escola e nos todos?...

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