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Porque é que todos os adolescentes têm de ser mal-educados?
Não têm, nem são!

Vamos por partes: não é fácil ser adolescente. Não é fácil por causa do corpo e das hormonas. Não é fácil por causa dos solavancos da cabeça. Não é fácil porque a adolescência não poder ser um estado de espírito e se transformou numa perspectiva de carreira. Não é fácil porque ninguém nos dá tempo para sermos adolescentes. E não é fácil porque todos convencionaram que um adolescente não é fácil. E pronto! (Também, para quem é que pode ser lisonjeante ser-se... fácil?…)

E, já agora, não é fácil porque os pais tornam tudo mais difícil. Se uma pessoa não sai com os amigos, alarmam-se porque, no tempo deles, não paravam em casa. Se uma pessoa quer ir ao café, depois do jantar, para socializar, agitam-se porque circulam por lá más companhias e “muitas porcarias”. Se uma pessoa espera que eles nos adivinhem, zangam-se, porque falamos por murmúrios ou por uma espécie de grunhidos que ninguém entende. Se uma pessoa fala pelos cotovelos vociferam e ainda perguntam: “mas tu nunca te calas?…”. O que a adolescência tem de mais difícil são as dificuldades dos pais. Eu acho que eles querem muito que uma pessoa cresça. Mas imaginam que, quando se cresce, só pode ser para pior.  (Será porque com os pais terá sido assim?)

E depois (há sempre um depois!) não é fácil porque os pais reconhecem que há um rio de diferenças entre tudo aquilo que eles dizem que fazem e acham que são e os exemplos que acabam a dar. E se, por isso mesmo, pode ser fácil sermos melhores que eles, não é fácil não termos quem nos faça sentir pequeninos mais ou menos para sempre, pela sabedoria com que nos levam ao espanto e pela admiração com que nunca nos faltam. E não é fácil porque sempre que eles se sentem em dificuldades se tornam difíceis. E quando eles querem puxar pelos galões da autoridade, sem grande moral para o fazerem,  tudo se complica. 

É mesmo por tudo isto que não sei quem é que convencionou que os adolescentes, só porque são adolescentes, têm que ser mal-educados. Mas não é bem assim que nada se passa. Na verdade, só não respeitamos quem não se dá ao respeito. E quem nos falta ao respeito e, mesmo assim, exige ser respeitado. E, já agora, quem deixa passar coisas que deviam ser repreendidas para, logo a seguir, nos ralhar por minudências e por outras coisinhas sem importância nenhuma. E quem não se enfurece e nos põe no lugar nem quando somos insolentes nem quando respondemos torto e magoamos. 

Porque é que todos os adolescentes têm de ser mal-educados? Não têm. Mas eu acho que acaba por ser conveniente que todos pensem assim. Sobretudo porque, em vez das pessoas se enxergarem ou se porem em causa com aquilo que lhes dizemos, é sempre mais fácil convencionar-se que somos difíceis. E a haver alguém que não compreende alguém esse alguém só podemos ser nós. É verdade que não somos um problema; mas sem os problemas que lhes pomos os nossos pais nunca cresceriam. Não tanto pelas dificuldades que colocamos aos pais na esperança de que, de problema em problema,  tornem mais fáceis sempre que nos tornam mais simples. Será que quem fala das dificuldades que os adolescentes acabam por trazer terá sido, alguma vez, adolescente ? Não! E, mesmo que tenha sido, será que percebe que a primeira função de quem nos educa não é tornar-nos fáceis mas, antes, mais simples (à medida que vão aprendendo - como na matemática - os problemas que lhes colocamos)? E, feitas as contas, será que já terá descoberto que é à conta de nos quererem fáceis (sem pormos problemas, portanto) que tudo se complica? Porque é que todos os adolescentes têm de ser mal-educados? Não têm de ser. Nem são! Porque não há adolescentes mal-educados sem pais bonzinhos, aflitos, demasiado palavrosos ou, até, atrapalhados. Quanto ao resto, deixem-nos espalhar charme, sim? E, em vez de mal-educados, contentem-se sempre que formos, simplesmente, mal-dispostos. Afinal, quem pode ter o privilégio de um adolescente a educar os pais, todos os dias,  sem ter que pagar a “taxa” com que tudo isso vem equipado?

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