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Todos os adolescentes ouvem a música aos berros?
E põem-nos a "cabeça em água"

É um tique de adolescência ouvir a música aos berros? Escutam-na assim porque a amam tão intensamente que a música precisa de vibrar bem dentro do corpo para que eles a sintam até ao mais fundo de si? E devemos intervir, e puxá-los à Terra, quando eles estão nesse êxtase todo ou quando os headphones estão tão alto que até a nós, que estamos a uns metros de distância, nos incomodam? Será que esta relação dos adolescentes com a música representa uma forma deles se educarem para a sensibilidade e como incitação para a palavra ou, pelo contrário, tanta música na vida deles representa uma (outra) forma deles nos “darem música”?

Comecemos pelo princípio: a música é "vitamina do crescimento" para os adolescentes. Formata aquilo que eles sentem e põe-nos a lidar com isso, de olhos nos olhos. Põe palavras onde eles sozinhos talvez não as conseguissem pôr, de forma tão esclarecida e bonita. Põe-nos a escutar. Vira-os do avesso. Põe-nos a pensar. E liga-os, uns aos outros, numa espécie de cumplicidade sem fim que os move para o que dá sentido a tudo aquilo em que acreditam. A música diz, por eles, "amo-te!" duma forma mais arrebatada e cativante. "Trocar" músicas serve para dizer "gosto de ti" de forma menos engasgada do que se utilizassem as palavras. Eleger uma música serve de "bandeira" para as causas que elegem. Etc. Portanto, não, a música na vida dos adolescentes (e o que se foi passando para que connosco não seja, hoje, assim?) não é uma forma deles nos "darem música". Mas, pelo contrário, de porem música em tudo o que fazem.

Acontece, no entanto, que a cabeça dos adolescentes tem uma tráfego de ideias digno de "hora de ponta". As fibras nervosas ficam tão mais expeditas a levar as ideias de um lado para o outro do cérebro, a uma velocidade estonteante, que, quase de um dia pra o outro, a coerência dos pais, a política, a religião, a filosofia, a ecologia, a demografia, a justiça e um comboio de outras causas ganham uma "velocidade furiosa". E, depois, há todas as questões que, em cascata, surgem em relação a eles, ao seu corpo, à pessoa que são, aos grupos por onde se passeiam, às suas relações, aos amores, aos ódios de estimação”, etc. que se acotovelam na cabeça e os põem a mexer. Nada, na cabeça deles, "entra a 100 e sai a 200". Mas tudo o que se lá passa viaja "a 1000"! E, depois, há, também, a sexualidade, claro, que excita e assusta. E os compromissos que concorrem com tudo. E as exigências que colocam sobre si próprios. E as inseguranças que não param de aumentar. E, a certa altura, o ruído dentro da cabeça é tão ensurdecedor que haver um ruído, fora da cabeça, que faça mais burburinho do que aquilo que se passa lá dentro é detox. Não só desintoxica; areja! Dá cabo dos ouvidos, pois é. Mas alivia! Até porque - é claro - com a música "aos berros", não se houve a resmunguice dos pais. E, nesse ponto em particular, estamos a falar de... "música" para os ouvidos de um adolescente.

A questão que se põe, a seguir, é se esse ruído todo os convida a apreciar a música. E a resposta será: talvez não. A "música aos berros" vale como o jogar compulsivo. Ou como uma vida social frenética. Ou como a espécie de toxicodependência que alguns manifestam diante das novas tecnologias. Quanto mais o ruído na cabeça aumenta, mais frenéticos eles se tornam. E quanto mais frenéticos mais ruído. Tudo numa escalada das grandes. E, quando é assim, mais eles precisam de ter quem os chame "à Terra". Aquilo que se espera é que tanto ruído os ponha a virar menos para si próprios e a terem de "falar pelos cotovelos". Eles não ganham se se puserem a resolver os seus problemas sozinhos. Portanto, música, sim. O mais possível; dentro daquilo que entenda que é razoável. Música demais, música sempre aos berros ou, simplesmente, um estar “ligado à corrente” sem "entidade reguladora" a definir, intuitivamente (por ensaio e erro), a partir de que altura eles já nos estão a "dar música" é que não. Porque, se for assim, nada disso contribui para que "arrumem a cabeça". E aí, sim, é altura de parar!

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