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Órfãos de irmãos vivos
Quando um irmão é, apenas e só, filho dos nossos pais

Há momentos em que os nossos irmãos se transformam, unicamente, em filhos dos nossos pais. E tornam-se estranhos, a ponto de não os reconhecermos em quase nada daquilo que eles nos foram trazendo de familiar e que ajudou a construir aquilo que somos. E isso dói. Muito! Porque eles já terão sido, inequivocamente, nossos irmãos. Já teremos sido cúmplices e confidentes. E, muito mais que os nossos melhores amigos, já terão sido, simplesmente, nossos irmãos.

O que é que foi preciso acontecer para que dois irmãos se tornem estranhos? Muitos “quase nada”. Demasiados silêncios autorizados. E, claro, muitas omissões (graves!) de gestos de lealdade e de ternura. Tudo com a autorização passiva dos pais.

Não são, portanto, as brigas de irmãos que os afastam. Nem os arrufos ou as bulhas. É a gestão trapalhona que os pais fazem das fracturas que se desenham, em suaves prestações, na relação entre dois filhos. E é por isso mesmo que, sempre que dois irmãos se afastam, os nossos pais morrem, para nós, mais um bocadinho. Mesmo que nós tenhamos "150" anos e os nossos pais "400"! Porque estamos sempre à espera que os pais, tenham a idade que tiverem, atentem às dores dos filhos, as medeiem, as musculem e as resolvam. O lado trágico de tudo isto é que, sempre que perdemos um irmão perdemos uma parte dos nossos pais. E, aos bocadinhos, morre uma família.
 
É claro que é tão mortificante para os pais sentirem que os seus filhos são crescidos, em tantas coisas, e tão decepcionantemente irreflectidos como irmãos que, aos pais, lhes falta, muitas vezes, a força para pegarem numa fractura de irmãos olhos nos olhos e gerirem-na com a autoridade e o amor que só os pais conseguem ter. Talvez porque, quando dois filhos já grandes se fracturam e ”deixam” de ser irmãos, também eles, os filhos, morram um bocadinho como filhos. E os pais morram com tudo isso, muito mais.
Grave não é que os pais não gostem de todos os filhos da mesma maneira. Nem que tenham os seus “fraquinhos”, claro. Nem que se imaginem a gostar de formas idênticas de todas as diferenças que os filhos têm. Grave é que, aos bocadinhos, escudados nas mais compreensíveis e bondosas justificações de pais, condescendam com tudo aquilo que um dos filhos faz aos outros. E condescendam sempre um pouco mais. E, ao mesmo tempo que condescendem, reafirmem que eles têm de ser amigos. Sem que os peguem, aos dois, “pelos colarinhos” e, de conversa dura em conversa dura, devolvam dois filhos à fraternidade que foge a todos. E grave será, ainda, que dois irmãos que rasgaram uma relação de irmãos (ou que mantenham num plano “institucional”), diante dos seus próprios filhos, ousem sentir-se com autoridade moral para serem bons pais quando se desautorizam como bons filhos e como bons irmãos, todos os dias.
O amor de irmãos não é uma memória. Afinal, para que é nos servem as memórias se, quando se ama, nada como o hoje vale mais?

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