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A educação de um rapaz
É sexista...

Conseguir estrelar um ovo, ser capaz de mudar uma fralda ou - top dos tops - ascender à categoria premium de "o meu marido ajuda" faz parte do pacote de lugares-comuns do discurso sexista sobre os homens com que uma criança cresce. Nalguns casos, acrescido pela expressão, "eu tenho três crianças lá em casa; a pior, é o meu marido". Noutros, com a resignação (como se fosse uma azelhice genética) que leva a que se considere que "os homens são todos iguais". Que são incapazes de ser românticos. Ou que são uns "imaturos". Ou, claro, que "querem todos a mesma coisa". Pode um rapaz ter um crescimento livre de constrangimentos e, saudavelmente, igual ao de uma rapariga quando não deixa de escutar, vezes sem conta, estas "pérolas" que colocam a qualidade de qualquer homem ao nível da contrafacção? Pode um rapaz crescer sem se "constipar" quando se trata de pôr "cá para fora" aquilo que sente quando ouve, sem filtro, um ror de vezes, alguém a dizer-lhe que "um homem não chora"? Pode ser do melhor que se quer para um filho que se acendam luzinhas de alarme quando, a par de tudo o resto das coisas com que preenche as suas brincadeiras, para além dos "carrinhos", ele tem um bebé careca ou, mesmo, uma boneca? É indiferente a um rapaz quando, sempre que reconhece que a sua vida já conheceu melhores dias, que haja quem lhe diga, quando está triste, que "um homem não chora". Ou, quando choraminga, que está ser "menina"? E, independentemente da forma como as crianças sentem a mãe e o pai, pode ele sentir como perspectiva apetitosa de futuro que, sempre que a mãe se vê em apuros com o reboliço da criançada, as coisas se coloquem num patamar próximo do "chamem a polícia", e uma criança oiça, de vez em vez: "e, depois, vem lá o pai; e tu vais ver"?

Eu não digo que muitas mães não tenham o direito à desolação pela companhia masculina que escolheram. Nem que não lhes doa a alma porque o pai dos seus filhos não será um "homem de sonho". Seja como for, a desolação de muitos homens será, em muitos casos, certamente, semelhante. Mas não será sexista que, sempre que uma mulher imagina um homem bonito, bondoso e cuidadoso, haja sempre alguém que a considere irreflectida e lhe diga que ela está a querer encontrar um "príncipe"? E não é igualmente mau que um rapaz que cresce a brincar com "super-heróis" (como se eles fossem uma expectativa de carreira), quando não reprime sentimentos, acabe a ser descrito como "um querido", "com um lado muito feminino”?

É verdade que muitas crianças têm maus exemplos de daquilo que será um pai. Mas é, também, verdade que o pai não tem o exclusivo dos maus exemplos com que elas crescem. Mas não será a educação de um rapaz cheia de apontamentos sexistas que lhe fazem mal? É verdade que sim! E é, também, verdade que nesse sexismo todo eles não deixam de ser, muitas vezes, vítimas de uma educação para a qual todos contribuímos. Todos! As mães e os pais, também. E, no entanto, estamos (todos!) no século XXI...

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