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"As crianças aguentam tudo!"
Não! Não, aguentam!

Foi preciso chegarmos aqui para termos voltado a escutar, muitas vezes, que "as crianças aguentam (quase) tudo." Seja quando se trata de aguentarem a quarentena como de aguentarem dois anos lectivos de escola cheios de turbulências e de restrições. Seja quando aguentam o distanciamento em relação às outras crianças como a forma como não podem viver a sua infância, livremente, na rua ou nos parques infantis.

Há algum tempo, era muito frequente, quase ao contrário de tudo o que está a acontecer, que muitos pais afirmassem o seu medo de "traumatizar" os seus filhos. Fosse quando entendiam sinalizá-los com um "não!", "como deve ser", como quando se sentiam na necessidade de lhes dar "mil explicações" para que eles aceitassem regras de simples bom senso. Como se os bons pais fossem aqueles que poupam às crianças (quase) todas as "dores de crescimento". Mas, afinal, sendo exagerada esta ideia de que tudo às pode traumatizar, não será, igualmente, muito pouco razoável que se aceite que, sejam quais forem os sobressaltos da pandemia, as crianças aguentam quase tudo?

Entende-se que, ao fim de 7 meses de pandemia, os pais façam um esforço muito grande para não se "perderem" por entre estimativas acerca das consequências que tantas mudanças, tão súbitas, podem trazer à vida dos seus filhos. Quer quando elas se traduzem em consequências (duradouras!) no seu comportamento social como, por exemplo, quando se expressam na forma como isso os obrigou a irem, muito depressa, do “dá um beijinho” ao afastamento, assustado (e quase um bocadinho "enojado") que alguns deles têm diante de quaisquer gestos amistosos de estranhos. E entende-se, também, que os pais (que acham - com uma inabalável convicção - que são os únicos e legítimos representantes de Deus, na Terra), não queiram parar para se questionarem acerca "do deve e do haver" dos perigos que concordam que os seus filhos acabam por correr quando, todos os dias, eles vão à escola. E entende-se, por fim, que todos os pais se sintam muito pequeninos diante de uma ameaça tão microscópica e tão avassaladora a ponto de empurrarem para mais tarde as suas preocupações sobre os custos que tudo isto pode vir a ter sobre os seus filhos. E que, por isso mesmo, não queiram nem sequer pensar nelas. E, quase para aligeirarem as suas preocupações, que acabem a afirmar que "as crianças aguentam (quase) tudo."

Uma infância cheia de restrições pode não ser uma infância infeliz. Mas não é, seguramente, uma infância tão feliz como desejaríamos que ela fosse para os nossos filhos. Este é o primeiro custo de um tempo cheio de coisas absurdas como este. Mas, depois, é importante que reconheçamos que não - não é verdade - que as crianças aguentam quase tudo! Elas podem continuar a rir ou a brincar. Podem continuar a dar toda a credibilidade do mundo ao último desenho animado com que se assustaram e que as levou a que se barricassem no nosso colo. Podem, até, parecer distraídas e despreocupadas. Mas, todavia, nunca estão distraídas! E nunca passam "ao lado" daquilo que lhes damos a viver. Portanto, não aguentam quase tudo! E se têm dúvidas olhem, por favor, para a forma como, trinta ou quarenta anos depois, vamos à memória buscar coisas, quase "insignificantes" aos olhos dos nossos pais, que nos "marcaram" e que, para surpresa deles, recordamos, ao pormenor, por nos terem condicionado muito mais do que deviam.

Não, as crianças não aguentam quase tudo! Podem não dar logo os sinais indispensáveis que nos ajudariam a perceber que não estão tão bem como queríamos (muito!) que elas estivessem. Podem não falar logo daquilo que as incomoda. E podem, mesmo, fazer de distraídas. Mas - para além dos factores de crescimento que isso lhes traz - tudo tem custos! Mas, de todos os custos, o maior de todos, e aquele que elas aguentam pior é, sobretudo - e com toda a legitimidade! - a forma como as imaginamos "de betão". Mesmo que, bondosamente, o façamos só para que o nosso coração não fique feito em cacos e fanicos. Mais do que ele, em muitos momentos, já andará com isto tudo.

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