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As histórias infantis são sexistas?
E discriminam?

As histórias infantis são sexistas, sim. Porque, regra geral, quem varre o chão, quem cozinha ou quem faz a lida da casa, são as mulheres. E isso leva a que as crianças suponham que a mulher "só pode" ser "a dona de casa". E isso é sexismo, sim. Como é sexismo supor que são as mães quem cuida das crianças, as alimenta ou adormece. Como também o é essa tendência de supor que as personagens femininas mais importantes das histórias ou são princesas ou candidatas a princesas, ou fadas e bruxas. E os homens guerreiros, claro. Eles conquistam-nas. Elas deixam-se conquistar. E a vida corre, sem sobressaltos. E isso é sexista. E é mau. E é sexista que a esse estatuto de princesa se chegue pela hereditariedade dinástica, vinda de um pai, ou pelo casamento, mas nunca pelo mérito ou pela capacidade guerreira. E isso alimenta de preconceitos o crescimento. E... é mau!
Mas não é sexista que os homens das histórias estejam ausentes de casa, mal conheçam os filhos e não os cuidem, não brinquem nem os protejam? E não é sexista que, quando escolhem uma nova mãe para os seus filhos, os homens se demitam de ser pais e os deixem ao cuidado de uma madrasta má? Que, por sua vez, é uma ideia de mulher pior que sexista: é preconceituosa e enganadora. E não é sexista que, nas histórias para as crianças, só aos homens caiba o galanteio ou a conquista? E não é sexista que eles nunca se deixem conquistar? E que, não sendo guerreiros, os homens das histórias sejam, quase invariavelmente, patetas? Quer quando fazem de Joões Ratões, de lobos maus ou de guerreiros gauleses transformados em heróis à conta de muito "doping", por exemplo? Aliás, às histórias para as crianças falta, também, uma "loba má", um "carochinho", ou uma "patinha feia". Porque esta ideia sexista que faz com que se suponha que os homens são chochos não dá com nada. E que, quando se trata de serem os maus da fita, possam ser capitães Gancho, na melhor das hipóteses, mas nunca, engenhosamente, maus, a ponto de serem bruxos. E não é razoável.
Seja como for, esta ideia sexista das histórias tem alguns aspectos em que as coisas estarão "ela por ela". Há homens estranhos que, nas histórias, se põem aos beijos a um cadáver, como há mulheres "esquisitas" que carregam nos beijos quando dão de caras com um sapo. E, aí, ficam uns e outros mal "na fotografia". Mas o que estraga mesmo tudo é supor que as histórias só são sexistas em relação ao papel da mulher. E que esses exemplos condicionam as crianças a ponto de as levarem a replicar esses modelos. E que, tirando a discriminação de que as mulheres são vítimas, tudo o resto, nas histórias para as crianças, estará bem. E não é verdade. Podem os modelos que lhes damos nas histórias melhorar? Claro. Mas não são eles que condicionam as escolhas das raparigas ou as escolhas dos rapazes. São os exemplos que lhes chegam. Nomeadamente, dos pais. Mesmo daqueles pais que se insurgem contra o sexismo de algumas histórias e alimentam de maus exemplos os filhos, todos os dias.

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