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As mulheres
E os homens, os filhos e a felicidade

Foi, recentemente, divulgado o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, As mulheres em Portugal, hoje, que se centrou sobre uma amostra de 2428 mulheres entre os 18 e os 64 anos. Com base nele, afirma-se que as mulheres portuguesas são seguras, intolerantes e conservadoras na intimidade. Consideram que o companheiro com quem vivem é a dimensão que mais determina a sua felicidade. Que se sentem mais felizes com ele se tiverem uma vida sexual intensa. E que é relevante para o seu bem-estar que o companheiro “participe de forma ativa nas tarefas domésticas”, que as “ouça”, que “lhes dedique o máximo de tempo possível” e que seja “carinhoso e atencioso" com elas. Sendo a “infidelidade”, a “falta de generosidade” e as “relações sexuais pouco satisfatórias” os aspectos que mais lhes provocam infelicidade. E consideram que, quanto mais longa for uma relação, menos sinceros, generosos, fiéis, bons ouvintes, carinhosos e dedicados se tornam os seus companheiros. Menos contribuem para o orçamento familiar. Menos partilham o cuidado e a educação dos filhos, bem como as tarefas domésticas. Perdem a capacidade para as fazer rir. As relações sexuais entre eles pioram. Sendo os filhos uma fonte de desgaste para o casal.

Ainda assim, as mulheres suportam mais do dobro do trabalho doméstico. As que somam o trabalho e os filhos à vida com um parceiro trabalham mais 24 minutos por dia do que aquelas que só conciliam trabalho com os filhos. As mulheres que têm um filho com 5 anos ou menos passam 82% do tempo em que estão em casa a dedicar-se aos filhos e à família. E o tempo de que dispõem para si é de 54 minutos (!) por dia. Havendo 5% de mães que se afirmam arrependidas de terem sido mães e 13% que se sentem não-realizadas com a maternidade. Apesar de tudo, não será a carreira profissional, mas a sua relação amorosa quem será a trave-mestra das suas vidas. E há um “pacote” de expectativas em relação aos seus companheiros que, sempre que faz com que convivam numa relação amor, ternura, atenção, partilha e cuidado as leva a sentirem-se felizes. Por mais que os filhos e a duração duma relação sejam quem mais cria constrangimentos a que isso seja possível.

Este “retrato” das mulheres portuguesas é emancipado. Sereno. Corajoso. Inequivocamente maduro. Nada sexista. E muito pouco demagógico. As mulheres portuguesas querem, sobretudo, ser felizes. Parece-me que é, no essencial, esse o retrato. E percebem que essa felicidade não se faz à margem dos homens.

Só não entendi uma coisa neste estudo: porque é que na sua apresentação - tirando o Senhor Presidente da República, o José Alberto Carvalho, e mais uma ou outra excepção - tínhamos um universo de participantes quase exclusivamente feminino. E, sem afastar que me digam que não terá havido quaisquer homens a manifestar o desejo em estar presentes, receio que a melhor forma de falar das mulheres em Portugal num país paritário não seja essa. Será a luta contra o sexismo um desafio em relação ao qual os homens devam ficar à porta? Por outras palavras, como se pode ter autoridade para falar contra o sexismo, promovendo-o?

Finalmente - para além dos dados relativos à forma muito pouco equitativa como as tarefas das mulheres e dos homens, em relação à família e às crianças, são repartidos - temos um dado muito importante assumido, com clareza, no inquérito: as mulheres precisam dos homens! Que bom! Não sinto, aliás, que os homens não precisem, igualmente, delas. E que não as sintam, eles também, como o centro da sua vida. Mas a clareza com que o assumem é tão esclarecida que irá colocar bom senso, acho eu, nas pessoas que aproveitam estas oportunidades para responder com sexismo contra os homens ao sexismo de que as mulheres são vítimas.

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