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Carta do direito dos avós à liberdade!
a vida em estado de sítio: 29

Os avós agradecem os cuidados que têm merecido por parte de todas as pessoas. Agradecem o carinho. E agradecem as cautelas. Mas lembram que, mais do que sobreviver, precisam (para estar vivos) de ter direito à liberdade.
Precisam de sair. E de saborear o burburinho da rua. Precisam das pessoas. E de muitos: "Olá! Está bom?...". E precisam - sempre! - de mais um: "Bons olhos vos vejam!". Ou de vários: "Bom dia! Como está?...", acrescentados de cumprimentos aconchegantes e de apartes calorosos. (Os avós são mimentos! A verdade é mais esta.) É por isso que eles precisam de ser senhores da sua vida. Precisam de ter de volta a sua mobilidade. Precisam de ser autónomos. E precisam de circular à margem de um olhar de censura ou de comentários condescendentes que os levem a imaginar que aquele será, muito provavelmente, o seu último passeio.
Os avós compreendem o confinamento. (Os avós, por serem mais velhos, não são destituídos, claro!) Mas recusam-se a viver em "liberdade condicional", por muitos meses. Porque eles precisam dos filhos; porque eles lhes trazem luz ao seu olhar. E precisam dos netos. Porque só mesmo os netos - e mais ninguém! - parecem ter um jeito quase esquisito de lhes tornar inquebrantável a sua vontade de estarem vivos.
Os avós percebem as barreiras. E os acenos de longe. Já se renderam, a contragosto, às videochamadas. E fazem de conta (como mais ninguém!) que escutam mal, sempre que os netos lhes perguntam, mais uma vez: "Quando é que me vens ver?…". Aceitam, até - sob protesto! - fazer greve de zelo aos abraços, por mais que isso lhes custe nódoas negras espalhadas por toda a alma. Mas recusam, a bem de todos, estar isolados por um tempo atolado em lonjuras e que parece não ter fim. Os avós precisam de ser pessoas como todas as outras. Precisam de encher a cabeça de coisas sempre novas. Mas precisam da vida de volta!
É por isso que os avós agradecem os cuidados que têm merecido. Mas lembram que, nunca estarão tão vivos para todos os que os merecem, sem que eles tenham direito à sua liberdade.

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